O ministro do sagrado é o representante de Jesus Cristo para o mundo. Ele atua “in persona Christi capitis” e atualiza os mistérios salvíficos por meio de suas palavras e ações. Esse homem é ordenado para o serviço de uma determinada comunidade diocesana e realiza seu ministério no “dom de si”, na entrega diária ao seu povo. Contudo, o ministério do sacerdote diocesano possui um âmbito invisível, uma dimensão que quase ninguém nota, mas que mereceria nossa atenção.
A responsabilidade de ser “administrador” das coisas de Deus na terra pesa diariamente sobre os ombros do sacerdote. O sagrado vem até nós pela vida do padre. Deus se rebaixa e se comunica por meio dele. Não se trata de esquizofrenia nem de uma encenação. Trata-se, antes, do ato mais sublime que pode ocorrer entre nós: a entrega do Deus feito homem sendo atualizada pelas mãos ungidas do sacerdote. Ser um canal da graça de Deus, proferir palavras que apagam pecados e consagram aquele pedaço de pão constituem o sentido do ser sacerdote. Antropologicamente, isso é impossível de explicar; Todavia, tudo provém da graça de Deus e coopera para que Ele santifique o seu povo e o salve. A graça de Deus basta (cf. 2Cor 12,9).
Pelo fato de ser esse canal da graça e mediador entre Deus e as almas, o sacerdote muitas vezes é confundido com um anjo, como se fosse um ser desprovido de matéria e incapaz de pecar. Trata-se de uma compreensão equivocada, que nega o dom de Deus que coroou a criação: o homem e sua humanidade. O padre, como os outros homens, é capaz de pecar. Deus quis que sua Igreja santa e imaculada fosse guiada por esses homens (a hierarquia) que possuem limitações, pecados e anseios. Não está nos planos de Deus que os homens pequem. Que o padre peque e até cause triste escândalo é algo realmente ruim. É de se notar que, quando isso acontece, faz a sociedade gritar mais alto do que diante dos inúmeros crimes e pecados que bradam aos céus, como o aborto que ocorre todos os dias nas clínicas. O que há nesse homem que provoca tamanha atenção?
Os sacerdotes possuem emoções, paixões, inclinações e desejos; enfim, toda a variedade de apetites inerentes à constituição da pessoa humana. Contudo, em um mundo em que o normal é considerado brega e os dogmas são vistos como opressões institucionais, o sacerdote é chamado, cada vez mais, a uma vida de ascese e mística. Nesse contexto, pode encontrar-se, muitas vezes, perdido — em alguns casos, dividido — e desviar-se do ponto fulcral da missão da Igreja, cedendo ao respeito humano ou a um aggiornamento superficial. Caríssimos, a fé, em sua esmagadora maioria, já não é transmitida de pai para filho. A cristandade deu lugar a uma sociedade marcada pela libertinagem. Ainda assim, a Igreja permanece, em meio ao caos, anunciando a grandeza da mensagem salvífica de Cristo, administrando os sacramentos e convidando todos à salvação em Cristo Jesus. Mais de dois mil anos de história continuam a ser escritos no mundo com uma marca que incomoda e faz refletir.
O padre é um sinal da presença de Deus no mundo. Ele chama a atenção sem nada dizer. Sua batina é tão eloquente para o mundo de hoje quanto a Divina Comédia o é para a Itália. O padre anuncia sem falar, incomoda sem proferir palavras e santifica sem nada receber. A gama de emoções que povoam sua mente, somada aos pecados e problemas de seus fiéis, pode ser esmagadora. Não bastariam os seus próprios problemas? A paróquia, muitas vezes vazia, e os bares, cheios, fazem as lágrimas daquele homem correrem. Seus joelhos doem de tantas noites em vigília por seu povo. A economia pode até ir bem; contudo, as almas se encontram de mal a pior. E se as pessoas souberem de seus problemas? E se ele errar? E se fracassar? Eis a vida invisível do sacerdote.
As exigências são complexas para a vida do padre, e muitos acabam encontrando seu caminho fora do Caminho. Estaria o sacerdócio católico fadado ao fracasso, diante dos inúmeros desafios da contemporaneidade? Definitivamente, não. Deus não erra ao escolher um sacerdote. Deus não improvisa. Ele não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos.
Dirijo-me especialmente a vós queridos padres: não tenhais medo. A grande crise que a Igreja enfrenta hoje é a falta de santos, e sua renovação só acontecerá quando houver a decisão de sê-los. As dificuldades existem em qualquer vocação; e, por mais que a vossa reúna elementos de muitas delas, Deus capacita vossos atos para que possais exercê-los da melhor forma, pois Ele não coloca sobre vossos ombros um fardo maior do que se pode carregar (cf. 1Cor 10,13).
Ânimo, sacerdotes! Vós sois configurados a Cristo, e Ele não desistiu nem quando suas mãos santas foram pregadas na cruz. Sim, o mundo vos odiará; mas tende coragem: um só é o vencedor do mundo (cf. Jo 16,33). Não fostes feitos para esta pátria; sois concidadãos dos santos e herdeiros do céu (cf. Ef 2,19). Ao fraquejardes no caminho, lembrai-vos de que tendes irmãos na mesma luta, que podem vos apoiar. Não deixeis para pedir ajuda depois; muitas vezes, já será tarde. Superai o ego que vos isola e aceitai ser ajudados por outros, assim como já ajudastes tantas almas que se abriram à graça. Além disso, Deus vos assiste constantemente com sua graça: pedi-a. Cuidai para que vossas ocupações não se reduzam a administrar as obras de Deus sem passar tempo com Ele. Precisamos de Deus, e o resto nos será dado por acréscimo. Por fim, a Rainha dos Sacerdotes deseja cumular o vosso coração sacerdotal de bênçãos. Não tenhais medo de entregar vossa vida a Ela; fazei dela a vossa Mãe e amai-a com o amor sincero de um filho que repousa no regaço acolhedor de sua querida Mãe.