O mistério da iniquidade, desde o primeiro casal, ronda a vida dos homens. A história está cheia de testemunhos da sua ação. Se o nosso tempo está crivado pelas setas do mal, com outros requintes o mesmo cão soube manejar as paixões humanas no tempo dos Beatos Manuel e Adílio. Num dos “painéis do passado” do Monsenhor Vitor Batistella, obra compilada em livro no ano de 1969 pela Gráfica Marin, o mesmo descreve um acontecimento próximo a Frederico Westphalen, que abre uma janela para ver os procedimentos do artífice da desordem e da mentira. Ali se mostra como era o ambiente naqueles pontiagudos tempos da Revolução de 1923. Desta foram bater os seus maus ventos em 1924, quando, por ódio à fé, aconteceu a morte do Padre Manuel e do Coroinha Adílio, próximo de Três Passos, então paróquia de Palmeira das Missões.
Como a pena do Monsenhor Vitor é extremamente mais abalizada, prefiro citar longamente aqui o seu 11º painel que ele chamou de “Horrores”, quando ele fala sobre a morte de um tal “Castelhano”. Diz ele:
“A revolução de 1923 produziu entre nós alguns (episódios de desumana crueza) que a memória dos antigos recorda com horror. Durante muitos anos ouvi pioneiros de nossa colonização referir-se à morte do ‘Castelhano’. Resolvi compor um dos meus ‘Painéis do Passado’ reunindo notícias, quanto possível exatas, sobre aquele fato e outros ocorridos na revolução de 1923. Para não escrever à toa abordei com toda a atenção alguns antigos moradores que ainda vivem e foram praticamente testemunhas oculares, além de sua idoneidade moral para informar com verdade.
A morte do ‘Castelhano’ parece ter tido ligação com o assassinato de um colono vindo de Guaporé, de sobrenome Secchi, que vivia solitário, apartado da mulher, num rancho de palha, à beira de uma sanga, no caminho, outrora pique, que da atual rodovia Oswaldo Cruz-Frederico Westphalen leva à ponte do Lajeado Pardo, em Sete de Setembro, na divisa das terras do Ginásio Agrícola. Secchi havia construído o moinho de José Tatto, na cascata do arroio Esperança, e tinha fama de possuir dinheiro. Era o mês de Março de 1923. Já corriam rumores e havia claros sinais de próximos choques entre maragatos e governistas. Foi advertido por amigos de que era arriscado ele viver assim sozinho e isolado em plena mata. Respondeu que nada receava, não podendo crer que alguém se preocupasse com ele, velho, homem de paz e que dinheiro não tinha. Mas, deu-se falta do velho. Não mais estava em seu rancho e ninguém sabia do seu paradeiro. Assim durante um mês, até que um dia, Luiz Lapazin, dono do moinho no Passo do Lapazin, soltou os cães de caça para uma corrida ao veado. Eis que um dos cachorros saiu do mato atrás do rancho do Secchi, trazendo entre os dentes um pedaço de perna de gente. Lapazin teve um pressentimento e, entrando no mato, deu logo com o cadáver do velho já quase descarnado, atirado à sanga com claros sinais de degola. Foram tomadas providências para o sepultamento e a morte permaneceu em mistério.
Todavia, surgiram as suspeitas. Não muito longe do Secchi, num descampado à beira do Lajeado Pardo e próximo ao pique, morava, por sua vez, o ‘Castelhano’, indivíduo cujo nome verdadeiro ninguém me soube dizer: Meia estatura, cor morena, robusto, mal-encarado, vivia com uma negra, sua amásia, sem filhos. Tinha fama de vadio, prevalecido, com vontade de possuir dinheiro sem trabalhar. Dizia-se também, à boca pequena, que era maragato, e não faltou quem o apontasse como provável autor do assassinato. As circunstâncias e aparências favoreciam a suspeita.
Estalou a revolução. Em princípios de maio, uma força governista veio de Fortaleza para o interior. Descendo pelo mencionado pique prendeu o ‘Castelhano’. Mas, porque prendeu? Ninguém me soube explicar ao certo. É fácil, todavia, concluir. Havia nesta força um homem de Barril, cujo nome deixo de declinar. Estava perfeitamente a par do crime e conhecia o ‘Castelhano’. Fosse pela fundamentada suspeita de culpa no assassinato, fosse pelo fato de o ‘Castelhano’ ser maragato, fosse pelas duas razões juntas, foi preso e levado até o pátio do Moinho Lapazin. E quem conta agora é o próprio velho Luiz Lapazin: ‘Passaram pela boca do ‘Castelhano’ um grosso tento atado na nuca. Prenderam uma ponta do laço de um lado e a outra ponta do outro, manietaram-no, e com violentos empuxões o derrubavam ora à direita, ora à esquerda, destratando-o, rindo-se dele, e dizendo: ‘Castelhano de m..., agora tu vais pagar tuas malvadezas’ - Horas depois tiraram-lhe o tento, passaram-lhe o laço no pescoço e, mãos atadas, ele a pé, os outros a cavalo, foi conduzido, através dos piques, até Vilinha, Rio da Várzea e Iraí, de lá voltando por Barril até Oswaldo Cruz, onde, à beira da estrada, no local em que hoje mora o ‘Giacomón’ acabaram matando-o com um tiro. Jogando-o ao mato deixaram dito que quem ousasse sepultá-lo, encontraria a mesma sorte. Testemunhas do fato, ainda vivos, disseram-me que realmente ninguém se animou a enterrar o miserável. Durante dias, corvos e cães comeram-lhe o cadáver, tanto assim que quem passasse pelo local era obrigado a tapar o nariz, tão forte era o mau cheiro... Houve outros casos não muitos e nem tão crus, quer do lado dos maragatos, quer dos governistas, de aprisionamento de adversários que, às vezes a sós, outras acolherados como cães de caça, eram conduzidos, ora a cavalo em pelo, pés atados por baixo e mãos por cima, ora simplesmente obrigados a acompanhar, e num ponto qualquer do caminho, matados a tiros e jogados à capoeira.”
Assim se descreve como de fato aconteciam as coisas. A revolução de 1923 teve concentração principal no Norte do Estado, em torno das cidades de Passo Fundo, Erexim, Palmeira das Missões, Vacaria e Lagoa Vermelha. Mesmo durante os armistícios havia lutas e violações de tréguas, muitas vezes com violência à gente pacífica, como a fazendeiros, com roubo de gado. Há que se lembrar da morte do pai do Beato Adílio, em maio do ano de 1923, tendo sido confundido com um revolucionário, em Erexim, quando numa de suas viagens para ali. Também, muitos se aproveitavam do ambiente revolucionário e pós-revolucionário para praticar crimes, pondo-os na conta dos revolucionários ou dos corpos de brigada, tropas legalistas do governo. Houve lugares em que as famílias formaram grupos de defesa de suas casas, como descreve também o Monsenhor noutro dos seus painéis.
Neste ambiente de impiedade, o bom vigário e seu fiel escudeiro, como gladiadores da Palavra de Deus, rasgavam as sombrias matas em busca de almas para salvar. Exercendo o dever, praticavam uma das obras de misericórdia, o enterro aos insepultos, anunciavam a paz, promoviam a boa cultura, o ensino, a fé, a esperança e a caridade, procurando o progresso da parcela do povo de Deus que a eles estava confiada.
Assim, se o ambiente de violência se devia a vários motivos, como a luta pelo poder político dentro do Estado, no processo de beatificação dos nossos beatos ficou provada a morte por ódio à fé, por conta das ideias anticlericais, nomeadamente por influência positivista, bastante presentes ainda em nosso estado.
Tem crescido em nossas paróquias o desejo de conhecer a vida dos Mártires Padre Manuel e do coroinha Adílio. Eles inspiram aos católicos a mover-se ainda mais pelos direitos de Deus no momento histórico em que estamos. Se as ideias e costumes contra a fé católica se multiplicam, muito mais crescem os novos cristãos, pela lançada semente do sangue dos mártires no nosso chão. A Romaria é um termômetro do crescimento da piedosa e devota admiração aos mártires.