COMO SERÁ NOSSO CORPO NA RESSURREIÇÃO?

30/03/2026 às 13:31h

Escrevemos aqui pensando na nossa própria morte, na morte de Cristo e no acontecimento da sua ressurreição. A fim de melhor reconhecermos o infinito bem que Deus realizou por nós, trazemos aqui, resumidamente, o que fala o catecismo sobre nossa fé na ressurreição e, também, com a ajuda de Santo Tomás, sobre como ficará o corpo ressuscitado e o que mesmo ressuscitará.

O enigma da condição humana atinge seu ponto mais alto com a morte. Com a fé, sabemos que esta é a consequência do pecado. Diz o catecismo, “embora o homem tivesse uma natureza mortal, Deus o destinava a não morrer”. A morte é contrária aos planos de Deus. Por isso, Cristo a transformou. Apesar do seu pavor diante dela, Ele a sofreu, num ato de submissão total e livre à vontade do Pai. Esta obediência de Jesus transformou a maldição da morte em bênção. (n. 1009). Assim, na morte, Deus nos chama para si. E, pois, morre-se uma única vez. Não existe “reencarnação” depois da morte. Morrer é um partir para Cristo, para estar sempre com ele. De modo que a liturgia da Igreja, no prefácio dos defuntos, assim expressa: “Senhor, para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada. Desfeito nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível”.

Diz o catecismo: “da mesma forma que Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos e vive para sempre, assim também, depois da morte, os justos viverão para sempre com Cristo ressuscitado e que ele os ressuscitará no último dia” (n. 989). Nesta frase aparece Cristo como o modelo e a causa da nossa ressurreição. Ressuscitaremos como ele, com ele e por ele. O catecismo diz ali também que a ressurreição é obra da Santíssima Trindade. De sorte que Nossa participação na Eucaristia dá um antegozo de transfiguração de nosso corpo por Cristo (n. 1000). Desde o batismo, “Graças ao Espírito Santo, a vida cristã é, já aqui na terra, uma participação na morte e ressurreição de Cristo.” (n. 1002). É uma vida que fica escondida com Cristo em Deus.

No final dos tempos acontecerá a nossa ressurreição. Como a de Cristo, ela diz respeito à carne. O termo carne designa o homem em sua condição de fraqueza e de mortalidade. Se a alma é imortal, a ressurreição diz respeito a este corpo mortal. Deus que nos criou inteiros, num composto, corpo e alma, dará vida aos nossos corpos mortais. Assim, todos ressuscitarão, com seu próprio corpo, não noutro, ou para a vida ou para a condenação.

Como crer que este corpo, tão manifestamente mortal, possa ressuscitar para a vida eterna? “Deus, na sua onipotência, restituirá definitivamente uma vida incorruptível a nossos corpos, unindo-os às nossas almas, pela virtude da ressurreição de Jesus. (Catecismo, n. 997). E como acontecerá isto já que o corpo se tornará pó? Nossa imaginação e nosso entendimento ficam aqui ultrapassados, sendo algo acessível somente à fé. Mesmo a respeito de como foi a ressurreição de Jesus não sabemos, é algo escondido no mistério de Deus. Apenas sabemos que ele apareceu ressuscitado e que depois subiu ao céu.

A respeito da qualidade dos corpos ressuscitados, Santo Tomás também indica claramente que o mesmo corpo que existe agora, tanto na sua carne como nos seus ossos, ressuscitará. Por isso, a ressurreição diz respeito ao único e mesmo corpo com o qual vivemos na terra. Ele se revestirá de incorruptibilidade. Os corpos ressuscitados serão de uma qualidade distinta desta de agora: serão incorruptíveis e imortais, sem necessidade de alimento nem de união carnal, apesar de ainda terem a identidade masculina ou feminina. Os corpos serão também íntegros, não faltando nada da perfeição humana. Diz Tomás que não haverá cegos e coxos, nem nenhuma deficiência. Ele fala até a respeito da idade em que ressuscitarão os corpos, a idade perfeita, 33 ou 32 anos.

O santo diz que os bons terão uma glória especial, pois os santos terão os corpos glorificados, nos quais haverá a claridade, resplandecente com o sol. Para os santos não haverá sofrimento. Seus corpos serão impassíveis. Também seus corpos terão agilidade. Correrão como centelhas no meio da palha. E, por fim, os corpos dos santos serão sutis, espirituais, totalmente sujeitos ao espírito. Já a condição dos condenados, diz Santo Tomás, será contrária à dos bem-aventurados, por conta da pena eterna que sofrerão. Seus corpos, pois, serão obscuros. Serão, também, passíveis, ou seja, sofrerão como num fogo que não se apaga, sem serem consumidos ou corrompidos. Serão, ainda, pesados, sendo a alma como que acorrentada pelo corpo. E, por fim, tanto a alma quanto o corpo serão de alguma forma carnais, como que apodrecendo em seus próprios estercos.

A respeito do quando da ressurreição, leva-se também em conta Cristo e sua Justiça. São Paulo fala que primeiro foi Cristo e depois os santos ou justos em Cristo. Significa que não serão todos ao mesmo tempo. De fato, tivemos Cristo que ressuscitou. Alguns dos santos do Antigo Testamento, diferentemente de Lázaro, também saíram dos túmulos e foram vistos por muitos, depois da ressurreição de Jesus, para atestar a divindade, o poder de Cristo e que o que aconteceu com Ele também acontecerá conosco. Remígio de Auxere diz que eles foram para a glória, junto com Cristo. Sabemos da Virgem Maria, que ao menos foi assunta ao Céu em corpo e Alma. Enfim, na segunda vinda de Cristo, quando poderá haver muitos ainda vivos, acabará o mundo presente e surgirão novo céu e nova terra.  

Além da ressurreição de Jesus ser um acontecimento passado, a fé na nossa ressurreição é útil. Santo Tomás diz que ela alivia nossa tristeza diante da morte de nossos entes queridos, remove nosso medo da morte, torna-nos pessoas cuidadosas e diligentes em fazer o bem e, pelo temor do castigo, afasta-nos do mal. Como seria bom se mais intensamente e numericamente crêssemos verdadeiramente na ressurreição!

O Senhor Nosso Deus aumente nossa fé no que nos foi transmitido, muito especialmente na ressurreição da carne, e nos faça perseverantes até o fim. Desejamos santas celebrações da Paixão, morte e ressurreição do Senhor.  

Fonte: Cônego Elisandro Fiametti
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