A liturgia é a grande celebração da Igreja: ação de Deus em favor do ser humano, que é inserido no Corpo Místico pelo Batismo. Trata-se de um duplo movimento: o homem, que glorifica a Deus com toda a sua imperfeição, é “divinizado”, e Deus acolhe o seu louvor como sacrifício agradável, pelo qual nos tornamos hóstias vivas oferecidas a Ele (cf. Rm 12,1). Desse modo, realiza-se a santificação, isto é, o processo da graça divina que age no íntimo da alma e à qual se responde com a fé operante. Assim se desenvolve a vida litúrgica do ser humano, na qual tudo pode tornar-se motivo de oferecimento a Deus, e os méritos são depositados no tesouro que devemos apresentar-Lhe.
A Santa Missa é o ato litúrgico por excelência da Igreja Católica, pois nela se atualiza o Mistério Pascal de Cristo e o Calvário se torna presente para nós. Jesus Cristo “desce” do altar celeste ao altar terreno e transubstancia as espécies materiais em seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Contudo, é importante notar que, para a realização da Santa Missa, não são essenciais apenas as palavras da consagração e todo o rito, mas também o alimento material — aquilo que é produzido pelas mãos humanas —, o “fruto da terra e do trabalho humano”, isto é, o pão e o vinho. Deus poderia ter escolhido qualquer outro meio; todavia, quis agir desse modo, associando o fruto da natureza, transformado pelas mãos humanas, à matéria do seu sacrifício redentor.
A liturgia da Igreja é celebrada com a associação integral do ser humano, que é convidado a unir-se ao sacrifício de Cristo para a edificação do Reino de Deus. São Paulo nos exorta: “Alegro-me nos sofrimentos que suporto por vós e completo, na minha carne, o que falta às tribulações de Cristo em favor do seu Corpo, que é a Igreja” (Col 1,24). Assim, a liturgia é, por excelência, sacrifício: primeiramente o de Deus, que se entrega objetivamente por todos nós; em resposta, associamo-nos às suas dores, enquanto Igreja militante, percorrendo o caminho do Calvário rumo ao Monte Tabor. O objetivo de toda ação litúrgica é ser transfigurado em Cristo, isto é, assumir a sua imagem, trabalhando nossas imperfeições e ordenando as paixões afetadas pelo pecado original.
“Na beleza da liturgia, a Igreja antecipa o céu: gestos, palavras e silêncios tornam-se louvor, e o mistério de Deus se deixa contemplar na harmonia do sagrado” (SC 7). Antecipamos, assim, a grande esperança que nos anima: alcançar a eterna contemplação de Deus. Ao contrário do que muitos pensam, não se tratará de um ato monótono ou ocioso, mas de contemplar Cristo como Ele se vê, com os olhos e o entendimento divinizados, para que possamos ser um n’Ele.
O Papa Bento XVI afirmava que a liturgia é uma celebração a céu aberto. Em sua compreensão, ela deveria envolver todo o agir humano: todos os atos deveriam ser orientados para Deus e realizados sob a consciência solene de sua presença. Contudo, sabemos que nem sempre é assim. Somos fracos e facilmente nos esquecemos de Deus. Por isso, a Igreja sempre exortou os fiéis a buscarem a presença divina nos diversos momentos do cotidiano. Além disso, as imagens e os demais objetos de piedade nos ajudam a colocar os sentidos e o intelecto diante de Deus, que constantemente nos vê.
A consciência da presença de Deus é o primeiro passo para fazermos de nossa vida uma liturgia. Quando oferecemos a Ele os pequenos e humildes atos que realizamos, tornamo-los meritórios e eficazes para nossa salvação. Agir como Ele agiria e pensar segundo o seu intelecto, se é que isso é possível, são sinais de que avançamos no caminho da vida eterna e desejamos verdadeiramente a santidade. Ser um homem litúrgico é ser um homem virtuoso: viver as virtudes, fugir do pecado, buscar a proximidade da graça, fundamentar o pensamento no amor, ajudar os fracos e socorrer os oprimidos. Todos esses atos, realizados por Cristo em sua vida pública, manifestam a liturgia humana em sua forma mais plena. Busquemos, pois, envolver nossa vida na liturgia celeste. Ofereçamos nossas obras a Deus como suave aroma que se eleva até Ele. E, quando cairmos, recordemos que a liturgia humana jamais será perfeita; ainda assim, ela é o caminho daqueles que desejam ser introduzidos na liturgia do Céu e viver eternamente cantando os louvores de Deus. Façamos da nossa existência um prolongamento da liturgia celeste.
“Da Santa Missa à Existência Diária: A Santificação pelo Sacrifício”