A VOCAÇÃO QUARESMAL
“Na Quaresma, a vocação do cristão não é apenas renunciar, mas deixar morrer o homem velho para que Cristo viva plenamente em seu coração.”

04/03/2026 às 10:58h

No decorrer do Ano Litúrgico da Igreja, somos convidados a penetrar nos mistérios celebrados em cada tempo, vivendo-os com fervor, de modo que toda a nossa existência se torne uma verdadeira liturgia. Contudo, a Quaresma é um período particularmente forte e diferenciado, no qual a Igreja nos propõe meditar sobre os pilares da vida cristã — o jejum, a oração e a esmola — preparando o nosso interior para o centro da fé católica: o Mistério Pascal.

O termo latino vocare significa chamar, convocar, dirigir um apelo. A Quaresma é, portanto, um grande chamado na vida do cristão: um apelo insistente que ressoa no íntimo da alma, convidando-nos a estar com Jesus no deserto, participando espiritualmente de seus quarenta dias de preparação. Não se trata de diminuir a importância das demais celebrações litúrgicas — todas são essenciais e se iluminam mutuamente —, mas de reconhecer que, neste tempo, a Igreja intensifica o convite à conversão do coração, à mudança de vida por meio da penitência e à recordação do fim último para o qual fomos criados, como escreve São Paulo: “Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4).

A Quaresma é tempo oportuno para reavivarmos nossos propósitos de santidade e crescermos na vida espiritual. Nas palavras de São Josemaria Escrivá, “não podemos considerar esta Quaresma como uma época a mais, como simples repetição cíclica do tempo litúrgico. Este momento é único; é uma ajuda divina que devemos aproveitar. Jesus passa ao nosso lado e espera de nós — hoje, agora — uma decisão generosa de mudança.”

Deus nos chama constantemente à conversão; porém, neste tempo, esse chamado torna-se mais explícito. A Quarta-Feira de Cinzas recorda-nos a brevidade da vida terrena e a necessidade de ordenar nossa existência para o Céu, pois aqui somos peregrinos. O Senhor deseja que as virtudes teologais — fé, esperança e caridade — infundidas no Batismo, cresçam e sejam fortalecidas pela graça. Contudo, não bastam intenções ou práticas exteriores isoladas: é necessário corresponder interiormente ao chamado divino, segundo a própria exortação de Cristo: “pedi e recebereis” (cf. Mt 7,7).

A essência da vocação quaresmal é cooperar com a obra da salvação que Deus deseja realizar em nós. Caminhando com Cristo, compreendemos o valor redentor da Cruz. Ele abraçou voluntariamente o madeiro sagrado, conhecendo o preço de cada gota de seu preciosíssimo Sangue derramado pela nossa redenção. Sua morte não foi em vão: a redenção foi objetivamente consumada. Todavia, embora a salvação tenha sido conquistada por Cristo de modo superabundante, cada um de nós deve acolhê-la e cooperar com a graça, perseverando até o fim. Como ensina São Paulo: “completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, em favor do seu Corpo, que é a Igreja” (Cl 1,24). Não porque a Paixão seja insuficiente, mas porque somos chamados a participar de seus frutos.

 Para alcançarmos o Céu, é necessário desejá-lo sinceramente e amar a Deus sobre todas as coisas. Assim respondemos ao chamado divino: tomamos a nossa cruz e, pela graça, iniciamos a subida rumo à pátria celeste. Neste tempo, esforcemo-nos por subjugar as inclinações desordenadas da carne e ordenar as paixões da natureza ferida pelo pecado original. Estejamos vigilantes: o demônio, como “leão que ruge”, procura a quem devorar (cf. 1Pd 5,8-9); contudo, ele só prevalece se consentirmos em abrir-lhe a porta.

Que esta Quaresma nos torne verdadeiros filhos da Igreja, dóceis ao seu ensinamento perene e fiéis aos mandamentos de Deus. E que a Santíssima Virgem Maria, modelo de fidelidade e penitência interior, nos conduza com segurança nesta jornada exigente, mas profundamente salvífica.

Fonte: Diácono Eduardo Augusto