DA CONVERSÃO DAS INSTITUIÇÕES

03/03/2026 às 10:35h

As rezas e funções da Quaresma falam em conversão e penitência. Aqui os outros articulistas certamente também estão a falar sobre estes temas. Está certo. O assunto volta como uma cantilena. Para quem tem a dor pelos pecados, isso parece o obturador de um dentista, a furar, a doer, a pedir anestésico e a curar. Se, por outro lado, nosso coração for duro, insensível, estes assuntos vão parecer brocas na pedra, fazem muito barulho e poeira e podem demorar para alcançar algum objetivo. A resposta à pergunta sobre quando acontece a conversão de cada um, vai depender da Providência Divina e do como cada um está disposto a recebê-la. São coisas, de início, bastante pessoais. E as instituições, será que elas não se deveriam converter também? Quem pode dizer que não? Vai depender da sua boa natureza, dada pelos seus fins, pela sua história, pelos meios com que atua e pelas pessoas que as dirigem. Para a inauguração do reinado de Cristo, já aqui neste mundo, o que alguns chamam de reinado social de Cristo, os temas da quaresma são também para as instituições.

Imaginemos como isto se daria nas escolas, nas universidades, nas empresas, nas famílias, na imprensa, nos sindicados, nos partidos políticos, nos hospitais, nos conselhos profissionais, entre outras instituições. Alguém poderia perguntar: Existe esta coisa de conversão das instituições? Bom, se a perversão existe nelas, e notamos claramente, sendo que de algum modo pode ser medida pelo mal que causa às pessoas que recebem os seus serviços, por que não poderia haver a conversão, que também pode ser medida pelos bons frutos trazidos pela instituição? Se existe a cultura da morte, como denominou São João Paulo II, que acontece com o empenho ou o apoio de instituições, por que não pôr na trama social a cultura da vida, pelas instituições mais diversas, modificando-as, se necessário e possível? Também o papa Leão XIV enfatizou a importância das instituições, ao falar para aquelas educacionais, no 60º aniversário da Declaração conciliar Gravissimus Educacionis, em outubro de 2025.

O reinado de Cristo passa pelos corações e frutifica no âmbito social, com a ajuda das instituições, ainda mais daquelas que possuem maior importância no tecido social. Não se pode pensar que existe uma dupla verdade: para a vida individual, o reinado de Cristo e, para a vida social ou das instituições, alguma outra verdade que as comande como queira, mesmo que contradiga àquela da vida individual.

Evidente que tudo isso depende das pessoas. Elas é que dão as tintas dos meios institucionais. Por isso que até dentro das melhores instituições pode haver gente corrupta, inclusive dentro da Igreja. Para elas cabe o ditado latino: “Corruptio optimi péssima”, ou seja, a corrupção dos melhores é péssima. Quantos relatos nós ouvimos de gente que muito sofre no ambiente de trabalho por conta da corrupção que ali tem que enfrentar, seja pela natureza da instituição, seja pela sua filosofia desvairada que os esfíncteres da má civilização ali deixaram, seja pelas pessoas de mau espírito que ali só fazem sufocar o bem. De alguns ambientes é melhor sair mesmo, antes de prostituir-se, vender-se ao demônio.

Parece importante ter presente que as instituições de má índole moral não deveriam existir. A sua natureza já é corrompida. Precisamos ter o máximo de misericórdia com as pessoas. Muito diferente é a tolerância ao mal. A este, tolerância zero. Se uma pessoa pratica o mal, precisa da conversão, sem aprovação do seu mal. Se uma instituição tem natureza má, deve ser cancelada. Podemos pensar no crime organizado, como institucionalizado. Aí fica fácil entender a necessidade de não haver tal organização. Mas também se pode pensar num partido político de má natureza, ou numa empresa criada para os serviços da chamada cultura da morte. Se alguém se assusta com isso, deve lembrar que o mal ainda existe e não deve ser tolerado.

Para uma boa celebração da Páscoa, a conversão e a penitência, temas eminentemente pessoais, por dependerem do núcleo de decisão de cada pessoa, devem alcançar também as instituições. Dado que há muito enfraquecimento das instituições, empenhemo-nos para alcançar uma vida virtuosa, primeiro de tudo convertendo nosso coração, pela penitência. E, juntamente com os homens de boa vontade, almejemos uma vida social com instituições convertidas e, principalmente, cheias do espírito de Cristo. Boa preparação para a Páscoa!

Fonte: Cônego Elisandro Fiametti
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