Estamos reiniciando as atividades no Seminário Maior, em Viamão, Rio Grande do Sul, com 16 seminaristas na etapa chamada agora de configuração (Teologia) e também com 13 seminaristas no Seminário Maria Mater Ecclesiae, em Itapecerica da Serra, São Paulo, na etapa também agora chamada de discipulado (Filosofia). Por graça de Deus, temos este que para nós é um bom número de seminaristas. O Senhor não deixa de chamar ao sacerdócio ministerial. Pesa sobre nós formadores o dever de cuidar para que os seminaristas sejam bem formados, participando do que Deus faz neles, já que o Senhor é o seu principal formador.
Para quem acha que temos muitos seminaristas, costumamos dizer que poderíamos ter mais. Precisamos trabalhar para ter muitos e bons sacerdotes, a fim de ampliar a missão dada pelo Senhor. Temos de nos dar conta de que as pessoas precisam profundamente, ainda mais nos nossos tempos, do que a Igreja Católica pode dar, como um hospital de campanha, como dizia o Papa Francisco, principalmente através dos sacerdotes. Mesmo que as pessoas não tenham conhecimento disso e até, mal informadas, digam não querer o que esta mesma Igreja oferece. Muita gente está perdida, empobrecida, destroçada, não tem a menor noção do que é a salvação que vem de Deus e a vida na Graça. Para a vida das pessoas, Deus nos concedeu um tesouro a administrar. Que enorme dom é o do sacerdócio!? Que tremendo e grandioso mistério é cada um dos sacramentos que somente o sacerdote pode dar? O que uma orientação feita com unção não pode fazer na vida de uma pessoa? O que uma iluminada homilia, numa celebração de exéquias, por exemplo, não pode fazer no coração dos enlutados? E quando as pessoas veem a bondade de Deus nas expressões de caridade do padre, generoso e desapegado de si, quando o mesmo organiza a comunidade para atender os mais necessitados! Um santo sacerdote, que sabe cultivar o trato com o Senhor, é um bálsamo para os corações aflitos!
Estes são exemplos dos trabalhos e do carisma do padre. Quando os padres sabem disso, com a Graça de Deus, eles se empenham generosamente pelo bem das pessoas, procurando levá-las no lugar para o qual foram criadas, para o que a tradição chama de céu. Com temor e tremor, eles sabem do que terão de prestar contas, eles não têm vergonha de ser padres, da sua missão e do poder que lhes foi dado. Ao contrário, são alegres, ficam imunes aos riscos das doenças espirituais e psicológicas, como a depressão, a tão conhecida Síndrome de Burnout e ao suicídio, comunicam o desejo de servir, com os “corações ardentes e os pés a caminho”, inclusive pela sua veste. Aqui é preciso dizer que a vestimenta, sim, faz o monge. O padre trabalha-se a si mesmo na medida em que se veste como padre. Penso que a maioria dos nossos padres sabe bem destas coisas todas e os candidatos ao seminário se dão conta de como eles vivem e do quanto fazem. Os sacerdotes precisam ser credíveis, como diz o Papa Leão XIV. Também por isso, com as mais diferentes idades, há homens atraídos ao sacerdócio!
Talvez em muitos lugares se tenha perdido a noção da grandeza da vida sacerdotal, da sua serviçal nobreza. Ali, perdeu-se o valor do padre! Mais do que isso, muitos padres tendem até a negar o que são, como se o ser padre fosse uma espécie de ofensa à igual dignidade de todos os seres humanos, ou uma escolha errada de um jovem idealista e iludido, ou que tudo o que alude ao sobrenatural não tivesse crédito. Ninguém, pois, quererá seguir a Cristo tendo como espelho para este seguimento um tal que vive de modo medíocre, uma figueira solteirona, estéril, amargurada, quanto muito acompanhada de outras ainda piores.
Enquanto isso, as pessoas sofrem por não terem uma missa bem rezada, um padre disponível para atender confissões e fazer voltar à vida da graça, uma palavra de conforto. Também sofrem por serem enganadas e acreditarem em qualquer coisa. Por isso, estão abandonadas, sem ninguém por elas, como ovelhas sem pastor, com a pele exposta aos dentes dos lobos. Nunca se tomou tanto remédio para as doenças do espírito. E nós? “Vendo a banda passar”, “com a faca e o queijo na mão”. Deus não abandona as pessoas, nós é que o fazemos, enterrando os talentos que Deus concede. É a caridade pastoral a que faz uma liturgia bem cuidada, uma paróquia bem administrada, a atualização sacerdotal, a não perda do tempo com futilidades e superficialidades, a alegria do padre.
Penso que também os bons seminaristas têm consciência das realidades apresentadas acima. É confortante ver como procuram levar a sério os mais diferentes aspectos da formação. Vê-se como muitos têm profundo gosto pelo estudo, pela vida de oração, pela meditação da Palavra de Deus, pelo apostolado. O filósofo Josef Pieper diz que é o ócio que dá sentido ao negócio. Até já escrevemos aqui sobre isso, para falar sobre a vida que se leva nas férias e nas folgas. Então, basta ver o que fazem os seminaristas nos momentos de folga. Não é raro ver um grupinho, nos corredores ou na varanda da casa, a discutir os temas da formação filosófica, teológica, pastoral, etc. Não é raro ver seminaristas rezando em horas que não estão no cronograma do seminário. A carta do Papa Francisco sobre a importância da literatura na formação dos padres animou ainda mais a muitos seminaristas para tão especial interesse, nomeadamente pelos clássicos. O mesmo se diga do interesse pela história da Igreja e pelo estudo dos grandes e bons autores do presente e do passado. Para o final deste ano de 2026, se Deus quiser, temos mais três ordenações diaconais e duas sacerdotais saídas de nosso seminário.
Temos grande admiração pelos padres que estão em idade mais avançada ou doentes. Uma forma de honrá-los é seguir renovando o clero, trilhando as pegadas daqueles que nos precederam na caminhada. Pelo que se disse acima, as novas gerações também querem empenhar sua vida em algo verdadeiro e desafiante. Quando percebem o espírito com que se vive a liturgia e a procura por ensinar o que a Igreja ensina e por ter uma vida generosamente doada para Deus e seus irmãos, eles se identificam.
Com grande misericórdia, por causa dos nossos pecados, o Senhor nos tem conduzido, tem acreditado em nós padres. Para o sustento da vida de padre temos, além da vida de oração, os estudos, a meditação das coisas de Deus, a presença contínua e a participação intensa na vida das nossas comunidades, nosso apostolado, o convívio com os irmãos no presbitério e com as famílias. Ser padre hoje faz lembrar que a Igreja já passou por muitos tempos difíceis na sua história, mas nunca com as condições que os tempos de hoje oferecem. Hoje, mais do que nunca, ser padre é desafiante.
Aceitando o convite de Deus para ser padre, e procurando ser bom padre, há muito trabalho. As pessoas estão necessitadas e muitas demonstram a sede do que Deus, com a Igreja, através do padre, oferece. Podemos contar sempre com a ajuda de Deus. A alegria de generosamente servir é garantida. Rezemos por muitas e santas vocações sacerdotais, em vista da salvação das almas.