AS VIRTUDES E A FELICIDADE DO CRISTÃO

01/10/2025 às 16:33h

O que é a felicidade? Como alcançá-la? De Aristóteles a Agostinho e a própria Escritura e o ensinamento da Igreja são unânimes em afirmar que todo homem deseja a felicidade. Aristóteles nos ensina que é possível conhecer o que ela é se determinarmos a função do ser humano. Graças ao bom Deus, não necessitamos percorrer todo o itinerário aristotélico, a fim de entendermos qual a finalidade do homem, para então entendermos a felicidade, pois nós, diferentemente do filósofo grego, temos a Revelação que nos diz explicitamente que em Cristo “Deus nos escolheu antes da fundação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor” (Ef 1, 3). E a Igreja é clara em afirmar que “O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem para Si, e só em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar.” (CIC 27).

Assim se percebe que esse desejo de felicidade é identificado com o desejo que o homem possui do próprio Deus. Vamos entender o porquê disso. Na perspectiva filosófica clássica, toda ação humana tem um determinado fim, um bem que tem por meta alcançar. Entretanto, todos os bens têm um caráter transitório, ou seja, de passar de um bem a outro maior, até o Bem Supremo que é absoluto e tem fim em si mesmo. Muitos como Aristóteles identificaram esse bem desejável por si mesmo como a felicidade. Agostinho terá uma concepção sutilmente diferente, a de que a felicidade não é o Bem em si, mas a posse deste. Ora, o bem supremo é Deus, isso a Revelação também nos demonstra, mas como conquistá-lo? Como estar em posse dele?

É óbvio que nunca teremos a Deus como se tem algum bem material, Ele jamais estará em nossa posse, como que em nosso domínio. O que Agostinho está dizendo, e que ele próprio explica, é que o devemos ter como um amigo benévolo. Santa Mônica faz a distinção entre possuir a Deus e não estar sem Ele, pois de alguma forma todos estão sob o seu olhar e ele ama a todos, mas muitos se afastam de Deus por seus vícios e pecados e outros ainda o estão buscando, sem o conhecer suficientemente. Em diálogo com sua mãe, Agostinho chega à seguinte conclusão: todo aquele que encontrou a Deus e o tem benévolo é feliz; todo o que busca a Deus tem-no benévolo mas ainda não é feliz e enfim todo aquele que se afasta de Deus por seus vícios e pecados não somente não é feliz, mas sequer goza da benevolência divina. 

O termo empregado por Agostinho para definir a felicidade é plenitude, e demonstra que a plenitude implica medida pois o que é em excesso de alguma forma também é inconveniente. Ora, medida ou mediania é o termo usado por Aristóteles para definir a virtude, que ele diz ser o caminho para a felicidade. A virtude é a mediania entre dois extremos, entre a falta e o excesso. A Igreja ensina que ela é uma disposição habitual e firme para fazer o bem, e diferencia entre virtudes cardinais e teologais. As primeiras se caracterizam por serem “adquiridas humanamente. São os frutos e os germes de atos moralmente bons; dispõem todas as forças do ser humano para entrar em comunhão com o amor divino” (CIC 1804). Entretanto, mesmo essas “se fundam nas virtudes teologais que adaptam as faculdades do homem para que possa participar da natureza divina” (CIC 1812). Essas últimas são a fé a esperança e a caridade e nós as recebemos, mesmo que em germe, pelo batismo, e depois do pecado pessoal, pelo sacramento da reconciliação. Entretanto, para cultivá-las necessitamos buscar também as virtudes humanas ou cardinais: prudência, justiça, fortaleza e temperança.

Por isso, empenhemo-nos em buscar uma vida virtuosa. Isto, é claro, só será possível com o auxílio da graça divina, a qual devemos pedir sem cessar, como nos diz São Paulo na carta aos Romanos, para conseguirmos praticar as obras do Espírito e gozar dos frutos de graça e paz em Cristo Nosso Senhor.

Fonte: Eduardo Bortoncello Seminarista da teologia em Viamão