O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM A FORÇA MISSIONÁRIA DA IGREJA?
“Com muita consolação considerávamos como o amor de Deus nos juntava naquelas terras tão longínquas. Dividimos entre nós o limitado espaço da nossa morada, com um tabique feito de canas. Ao lado tínhamos uma capela, pouco maior que o próprio altar em que celebrávamos a Missa. Por eficácia deste supremo e divino sacrifício, em que Cristo se ofereceu ao Pai na Cruz, começou ele a triunfar ali, pois os demônios que antes costumavam aparecer a estes índios não se atreveram a aparecer mais, como testemunhou algum deles. Resolvemos continuar na mesma palhoça, embora tudo nos faltasse. O frio era tanto que nos custava adormecer.” (São Roque Gonzalez, Carta de ao seu superior provincial, 1615)

01/10/2025 às 15:38h

Jesus mandou: “Ide pelo mundo inteiro e proclamai o Evangelho a toda Criatura! Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer, será condenado.”

A Igreja, desde os primeiros tempos, obedeceu a este mandato missionário. São Paulo empreendeu viagens, sofreu naufrágios, prisões, açoites e passou mil dificuldades para anunciar a morte de Cristo na cruz e a sua Ressurreição. Sofreu o martírio pela espada. São Pedro foi até o coração do Império Romano e ali também pregou este mesmo Evangelho, até ser ele mesmo crucificado de cabeça para baixo. Com a mesmo ânimo os outros apóstolos anunciaram o que Deus tinha realizado. Tamanha era a força dos primeiros cristãos que, nos três primeiros séculos da Igreja, uma multidão de homens e mulheres preferiu antes morrer que renunciar à fé e ao mandato de Jesus.

Ao longo da história, com heroísmo, os missionários atingiram todos os continentes. Só para citar alguns exemplos, São Patrício converteu os irlandeses; São Bonifácio foi o apóstolo da Alemanha; Francisco Xavier passou pela índia e foi até o Japão; Tivemos São José de Anchieta, o apóstolo do Brasil. Nas terras onde hoje é o Rio Grande do Sul, tivemos os missionários mártires de Kaaró, além dos mártires beatos Manuel e Adílio. Toda essa gente, com os escassos meios da época, fez crescer a semente da fé por quase todo o mundo.

Como pode ser que agora, com os meios de transporte e comunicação atuais, com algumas exceções, há um esfriamento no anúncio do Evangelho, a ponto de até bispo, em lugares de missão, dizer ter orgulho de não batizar ninguém?

Onde está o problema? Será que a Igreja mudou a orientação?

Não, a Igreja não mudou a doutrina. João XXIII já recordava o que tinham dito os papas anteriores. Para ele, é preciso incrementar as missões com a formação do clero e de leigos missionários autóctones, que melhor conhecem a língua e os costumes locais, para propagar o Evangelho (Príncipes Pastorum, nn. 15, 24 e 44).  Não está aqui o problema!

Qual é o problema, então? Os Padres do Concílio Vaticano II, debruçando-se sobre o tema da verdadeira religião, afirmaram: “Acreditamos que esta única verdadeira religião se verifica na Igreja Católica e Apostólica, à qual o Senhor Jesus confiou a missão de a difundir a todos os homens, dizendo aos Apóstolos: ‘Ide, pois, fazer discípulos de todas as nações, batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinai-lhes a cumprir tudo quanto vos mandei’ (Mt 28,19-20). Por sua vez, todos os homens estão obrigados a procurar a verdade, sobretudo no que se refere a Deus e à sua Igreja, e a abraçá-la e pô-la em prática, uma vez conhecida”. (Decl. Dignitatis humanae, n. 1). Não está aqui o problema!

E, ainda, o Concílio Vaticano II diz que a Igreja Católica é o único sacramento universal de Salvação (LG nn. 1 e 48). Somente ela possui o conjunto dos meios para a salvação para o mundo inteiro. Daí vem a necessidade de salvar as almas, fazendo-as participar desta mesma Igreja. O mesmo Concílio diz, no Decreto Ad Gentes,  que a missão da Igreja é conduzir os homens ou os povos à fé, à liberdade e à paz de Cristo, não só pelo exemplo de vida e pela pregação mas também pelos sacramentos e pelos restantes meios da graça, de tal forma que lhes fique bem aberto caminho livre e seguro para participarem plenamente no mistério de Cristo. (n. 5). O problema não está no Concílio Vaticano II!

Qual é o problema, então? Os papas recentes seguem a mesma doutrina. Deles basta citar os seus principais documentos sobre o tema: de São Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi; de São João Paulo II, Carta Encíclica Redemptoris Missio. Também o Papa Francisco exortou: “Fiel ao modelo do Mestre, é vital que hoje a Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem medo. A alegria do Evangelho é para todo o povo, não se pode excluir ninguém” (Evangelii Gaudium, n. 23). Então os papas não têm a ver com o problema! Claro que não.

E veja o que disse o papa Leão XIV: “Cristo é o nosso Salvador e n’Ele somos um só, uma família de Deus, para além da rica variedade das nossas línguas, culturas e experiências. A apreciação da nossa comunhão como membros do Corpo de Cristo abre-nos naturalmente à dimensão universal da missão evangelizadora da Igreja e inspira-nos a transcender os limites das nossas paróquias, dioceses e nações, para partilhar com todas as nações e povos a insondável riqueza do conhecimento de Jesus Cristo (cf. Fil 3, 8).”  (Discurso do Papa Leão XIV aos participantes na assembleia geral das Pontifícias Obras Missionárias, 22 de maio de 2025). Então, nem no papa reinante está o problema, inclusive por que ele foi missionário!

Afinal, qual é ou onde está o problema?

Para a Congregação para a Doutrina da fé, cujo prefeito era o Cardeal Ratzinger, depois Papa Bento XVI, “o perene anúncio missionário da Igreja é hoje posto em causa por teorias de índole relativista.Tais Teorias consideram superadas a verdade de que Jesus, Verbo de Deus feito homem, revela Deus e o homem. Também estas teorias não diferenciam a fé cristã, dada por Deus, daquelas crenças humanas, coisas das outras “religiões”. Elas dizem que estaria superada a verdade de que a Igreja Católica é a única Igreja de Cristo e de que ela é a mediadora universal da salvação. (cf. Declaração Dominus Iesus). Como alguém vai passar necessidades, viver longe da pátria, sofrer e até ter um para quê dar a vida se estas verdades são tidas como superadas? O enfraquecimento da força missionária dos católicos é, na verdade, um enfraquecimento das verdades da fé. Há uma “apostasia silenciosa”, um abandono da igreja e da fé, como definiu São João Paulo II, ao falar da Igreja na Europa. O que o papa falava sobre a Europa está valendo para nós.

A Declaração Dominus Iesus diz mais: na raiz destas teoria está “a convicção de não se poder alcançar nem exprimir a verdade divina, nem mesmo através da revelação cristã; uma atitude relativista perante a verdade, segundo a qual, o que é verdadeiro para alguns não o é para outros;” A Declaração mostra que alguns não aceitam a intervenção de Deus na história de modo definitivo. Depois diz que alguns reduzem a Encarnação do Verbo de Deus a um simples aparecimento seu na história, como um evento do passado, sem real incidência consistente atual. E continua dizendo que há estudiosos que misturam “ideias provenientes de diferentes contextos filosóficos e religiosos, sem se importar da sua coerência e conexão sistemática, nem da sua compatibilidade com a verdade cristã; a tendência, enfim, a ler e interpretar a Sagrada Escritura à margem da Tradição e do Magistério da Igreja.” Aqui se mostra o problema.  

E, ainda, por fim, diz a Declaração: “na base destes pressupostos, que se apresentam com matizes diferentes, por vezes como afirmações e outras vezes como hipóteses, elaboram-se propostas teológicas, em que a revelação cristã e o mistério de Jesus Cristo e da Igreja perdem o seu carácter de verdade absoluta e de universalidade salvífica, ou ao menos se projeta sobre elas uma sombra de dúvida e de insegurança.”  Dá pra ver bem onde está o problema! Com estas teorias, arrasam-se as forças espirituais dos católicos.

Quanta missão até próxima de nós há que ser feita e refeita, além daquela de lugares distantes! Por gratidão e obediência a Nosso Senhor, que se encarnou, morreu com morte de Cruz e ressuscitou para nossa salvação, nós vamos seguir o seu mandato missionário, com renovada e antiga força. É a força do Espírito de Jesus, que esteve presente desde o Pentecostes, no início da Igreja. Não está ao nosso dispor deixar almas ao não conhecimento de Cristo e, pior, à condenação por nossa própria culpa.

Fonte: Cônego Elisandro Fiametti
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