“A CRUZ… É PODER DE DEUS” (1 Cor 1,18)

02/09/2025 às 17:03h

“Aproximemo-nos então, com confiança, do trono da graça, para conseguirmos misericórdia” (Hb 4,16). Qual é este trono da graça que São Paulo nos convida a buscar? Poderíamos cair em um erro moderado de pensar que este trono é “a vida boa” o comodismo fruto da preguiça, retratada nos filmes, na imagem dos reis que vivem no luxo, nos grandes banquetes, acomodados, que vivem somente para si mesmos, esquecendo-se da entrega de si. O trono da graça cristão é totalmente o oposto do cômodo do mais fácil.

Neste sentido, vemos que o grande símbolo cristão é a cruz de Cristo como diz São Paulo: “A Cruz… é poder de Deus” (1 Cor 1,18) e é exatamente este o trono de Deus, a Cruz, que antes era sinal de maldição, – “maldito todo aquele que é suspenso no madeiro” (Gl 3, 13) – agora  se torna sinal de salvação, pois é na cruz de Cristo que somos libertos do julgo do diabo, do pecado e da morte eterna. Mas, por que a cruz? Algo tão malvisto, que implica um sacrifício, uma entrega de si mesmo, um desconforto, não seria isso irônico? Ainda mais se lembrarmos das palavras de Cristo: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me”. (Lc 9, 23). O cristianismo seria algo para loucos? Para quem não tem amor? Para quem não sabe amar?

Muito pelo contrário. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13). A cruz de Cristo é o ápice do amor, onde vemos um Deus que é perfeito amando, dando tudo de si até a última gota de sangue, ao ponto de sair água de seu lado aberto. Porque dá tudo, não deixa nada para si, este é o amor verdadeiro, aquele que é capaz de se doar sem medidas pela pessoa amada. 

É exatamente deste o trono que devemos nos aproximar, pois é dele que emana a graça da salvação, não simplesmente pela cruz, pelo sofrimento, mas por aquele que ali está crucificado, o Cristo Filho do Deus vivo. Ele dá sentido ao sofrimento, não pelo sofrimento, mas pela entrega de si ao próximo, o amor ágape de Deus, o amor perfeito, que dá o dom de si mesmo pelo próximo. É este amor que contemplamos no alto da cruz, antes de um Deus que sofre, que tem todo o seu corpo flagelado, esbofeteado, humilhado, temos um Deus que ama, e amando deixa-se ser condenado, não pelo sofrimento, mas pela humanidade inteira que estava sendo salva em seu amor.

Tal amor não seria visível na doação dos pais ao se sacrificarem dia a dia pelo sustento da sua casa? Por acordarem pela madrugada para cuidarem dos seus filhos? Ou então de um sacerdote que abre mão do seu descanso para cuidar de seu rebanho? Ou ainda na ação concreta de abrirmos mão das nossas vontades para fazer a vontade do amado? Sim, tudo isso tem ligação ao amor cristão, que não envolve em ser um “Superman”, mas em ser homem, mulher e dentro das nossas limitações, incapacidades, perseverar no amor, saindo de nós mesmos e nos colocando em ajuda ao próximo, compreendendo as necessidades daqueles que vivem em nossa volta. 

            Para chegar a este amor que somos chamados pelo Cristo, como Ele disse: “Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34), é necessário nos colocarmos diante deste trono da graça e contemplar o crucificado, a face do Cristo que ali ama. Ele é o modelo a ser seguido. Como cristãos somos chamados a esta perfeição que envolve não somente em amar aqueles que nos amam, mas a todos, até aqueles que nos fazem mal. Olhemos a escola dos santos que aprenderam a contemplar o crucificado, Santo Antônio, São Francisco de Assis, Santa Dulce, que deram suas vidas a Deus no serviço dos mais necessitados. Ou, então, olhemos para Santa Terezinha, que viveu a caridade em um Carmelo, suportando sem reclamar as dificuldades da rotina, fazendo de cada serviço um ato de amor a Deus, desde os mais pequenos afazeres.

            Por que nós também não poderemos alcançar tal união com Cristo, ao modelo dos santos? Podemos, sim. A graça que constantemente emana da Cruz de Cristo, atualizada a cada eucaristia, nos impele, nos dá força e ânimo para prosseguirmos na imitação de Cristo. Voltemos nossos olhos ao crucificado, ao mistério de amor de Deus por seus filhos e busquemos o amor ágape que emana da cruz que envolve em não fazer somente o agradável, cômodo, mas que se coloca em oferecimento de si mesmo, nas pequenas coisas, nos sacrifícios diários, traduzido em obras como perdoar, servir, dar atenção às necessidades alheias, nos detalhes que passam desapercebidos. O Cristo no alto da Cruz, que venceu a morte, nos mostra que tal graça que emana do seu trono não é algo abstrato, mas o coração da vida cristã, que não somente deve ser vivido, mas que, unido a Ele, Jesus Cristo, pode sim ser colocado em prática.

 

Fonte: Diogo Dalla Nora Seminarista do terceiro ano da teologia
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