O MELHOR LIVRO PARA REZAR

01/09/2025 às 14:06h

Se você tem dificuldades de rezar, não pense que você é a única pessoa com isto. Até muitos santos a tiveram! Os livros de espiritualidade tratam sobre o tema e, inclusive, há livros somente sobre isso. Ter dificuldade de rezar não é uma novidade. Desistir da oração não é a opção. Bom é procurar alguma ajuda. Também não está mal ter livros que ajudem a rezar. Evidentemente, é necessário cuidar para não cair na tentação de comprar uma montanha de livros, pensando que eles são a solução fundamental para melhorar a vida de oração. A tentação é ainda mais provocada por um mercado editorial cheio de opções, e boas, resgatadas do baú da tradição. Antes, é preciso ter em conta que a oração é a elevação da alma a Deus, que é um trato ou um convívio com o Senhor, um conversar e até um simples estar com Ele. E, se formos pensar em livros que podem ajudar, a Sagrada Escritura é por excelência o livro de oração, uma coleção deles, seja para oração vocal, seja para a meditação, para a oração mental ou para a contemplação. Todo mundo tem em casa. Como aproveitá-la, como Palavra de Deus que é, para tratar com o Senhor, intensificando nossa amizade com Ele? Vejamos como isso se pode dar.

Antes de tudo, é preciso notar que, se vamos usar a Bíblia para rezar, já a sua leitura tem que ser acompanhada de oração. A oração e leitura da Palavra de Deus precisam andar juntas. Se vamos ler e, somente depois, rezar, já não vamos entender direito e nem rezar direito. Reze lendo e leia rezando e disto brotará mais oração. É a chamada leitura orante da Palavra de Deus, ou lectio divina, um modo exemplar de ler a Sagrada Escritura, explicada no n. 87 da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini do papa Bento XVI, facilmente encontrada na Internet. Bem dizia Santo Agostinho: “A tua oração é a tua palavra dirigida a Deus. Quando lês, é Deus que te fala; quando rezas, és tu que falas a Deus”. É verdade que muitos dizem não entender o que ali está escrito. Talvez falte oração enquanto lê. Talvez não entendem por que ninguém os explica, como foi o caso descrito no capítulo 8 dos Atos dos Apóstolos, quando Felipe encontra um etíope que gostaria de entender um trecho do profeta Isaías. Mas, sem o Espírito Santo, autor do texto e presente na oração, não há bom entendimento. Até muitos estudiosos da Sagrada Escritura, tidos como entendidos do assunto, muitas vezes também escondem a verdade do que ali está. Talvez falte fé e oração. A Sagrada Escritura será livro de oração e será bem lida se também a compreendemos acompanhada de oração.

Dito isto, apontemos os modos em que os fiéis da Igreja podem usar a Sagrada Escritura como livro de oração. O mais importante deles é o uso na liturgia, particularmente na missa, mas também na celebração dos outros sacramentos e na Liturgia das Horas. Nestes momentos, enquanto escutamos as leituras ou cantamos os salmos, nós meditamos e já damos respostas atuais aquilo que ouvimos. Especialmente os salmos têm essa capacidade de provocar em nós uma oração, o louvor, a súplica, o pedido de perdão, já que eles são diretamente oração fixada na memória do povo de Deus. E, como eles falam de Jesus, são orações atuais. Os Evangelhos facilmente provocam a contemplação, pois eles têm o gênero narrativo, descrevem cenas da vida do Senhor, acontecimentos, parábolas e, em tudo isso, parece que estamos ali dentro. De aí, no momento em que se está ouvindo, dizer algo para o Senhor é uma questão de atenção às próprias inspirações dEle.

A oração com a leitura da Sagrada Escritura é feita no seio da Igreja, em comunidade ou individualmente. Queremos dizer que a leitura não pode ser compreendida apenas pelos critérios da nossa cabeça individual. Contudo, nada impede que usemos a Bíblia em nossas orações individuais. Quando estamos sozinhos e parece não haver inspiração para rezar, olhe e está ali perto a Bíblia. Então, para fazer oração, podemos tomar o Evangelho do dia, que a Igreja sabiamente ordenou para todos os dias do ano. Outra boa sugestão é fazer uma leitura continuada da Sagrada Escritura, um trechinho por dia, começando pelos Evangelhos e pelo Gênesis, alternando um capítulo aqui e outro lá, fazendo a lectio divina. Também, às vezes sem nos darmos conta, usamos as Escrituras no momento em que rezamos o terço. A contemplação dos mistérios de Cristo que acontece na oração do terço está amplamente fundada em passagens da Sagrada Escritura. Os livros de oração coletam estas passagens. O Angelus, tradicionalmente rezado em três horários do dia: pela manhã, às 6 horas; ao meio-dia, às 12 horas; e ao final da tarde, às 18 horas, também é tirado da palavra de Deus, já que que recorda o mistério da Encarnação, tem a vitalidade da Escritura ali presente.

Terminamos aqui com uma citação de Origines, a respeito da lectio divina: “Dedica-te à lectio das divinas Escrituras; aplica-te a isto com perseverança. Empenha-te na lectio com a intenção de crer e agradar a Deus. Se durante a lectio te encontras diante de uma porta fechada, bate e ser-te-á aberta por aquele guardião de que falou Jesus: ‘O guardião abrir-lha-á’. Aplicando-te assim à lectio divina, procura com lealdade e inabalável confiança em Deus o sentido das Escrituras divinas, que nelas amplamente se encerra. Mas não deves contentar-te com bater e procurar; para compreender as coisas de Deus, tens necessidade absoluta da oratio. Precisamente para nos exortar a ela é que o Salvador não se limitou a dizer: ‘procurai e encontrareis’ e ‘batei e ser-vos-á aberto’, mas acrescentou: ‘pedi e recebereis’”. (In Verbum Domini, n. 86). Assim, matamos dois coelhos com uma cajadada só: compreendemos melhor as Sagradas Escrituras porque rezamos ao lê-la e rezamos usando a Sagrada Escritura, porque ali Deus nos falou e continua a falar, buscando encontro conosco.

Fonte: Cônego Elisandro Fiametti
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