Na liturgia católica, existem diferentes graus de celebração, de importância: as mais solenes são as Solenidades, seguidas pelas Festas, depois as Memórias e, finalmente, as Férias (dias comuns). E um dos elementos que distingue as cerimônias mais importantes é, sem dúvida, o canto. Mas por que a Igreja quis adornar os textos da liturgia com melodias nas celebrações importantes? Vamos tentar responder a isso neste breve artigo.
A mais recente versão Missal Romano em português (2023), traz entre suas novidades, melodias para a saudação inicial, as orações, o Prefácio e até mesmo a Consagração. Com isso, busca-se dar maior solenidade a esses momentos cruciais. É notável a diferença entre uma oração apenas recitada e uma oração cantada; o canto confere às palavras um ar sobrenatural muito necessário para a nossa fé.
Para entender a natureza do canto e sua repercussão em nossa alma, precisamos considerar dois pontos: primeiro, somos seres sensíveis. Isso significa que recebemos informações através dos nossos sentidos, e quanto mais belamente essas informações chegam aos nossos sentidos, mais profundamente penetram em nossa alma. Em segundo lugar, precisamos entender a natureza do canto. Cantar não é apenas uma manifestação artística; é uma forma de nos comunicarmos como os anjos se comunicam, é uma forma de nos recordar como falávamos antes do pecado original no paraíso.
Isso porque somente a voz humana pode cantar propriamente. Alguns animais podem emitir sons agradáveis, e os instrumentos musicais podem reproduzir uma infinidade de notas e timbres diferentes, mas apenas a voz humana é capaz de, junto com o som, articular a palavra, embelezando-a, dando-lhe seu verdadeiro sentido. Estar consciente disso nos permite ver a grandeza do canto, a força que ele tem para mover as almas atentas e a grande batalha musical que está sendo travada em nosso tempo.
São Pio X, aquele grande Papa que a Igreja teve, dizia que "nada que perturbe a piedade do povo deve ser introduzido em nossos templos" (Cf. Tra le sollecitudini, 1903). Mas hoje vemos com pesar que não apenas no mundo exterior a qualidade da música caiu em notória degradação, mas essa degradação artística e moral também chegou aos nossos templos. Não raras vezes ouvimos em nossas igrejas cantos desafinados, com letras vazias, sem referência às Escrituras, sem respeitar os textos oficiais, sem carga de beleza e ordem, com sons estridentes e perturbadores. A música, que deveria expressar com sons a beleza da nossa fé, transformou-se em espetáculo, em apresentação, afastando-se do espírito que deve motivar sua existência.
Sem os cantos belos, com textos tirados dos salmos, São Agostinho provavelmente não teria se convertido. A música não é algo acessório em nossa vida eclesial. É um adiantamento do céu, é um cantar com os anjos, é um ato de amor a Deus, é uma mostra de obediência à nossa Igreja.
Nem toda música que fala de Deus é digna da liturgia. A Igreja nos diz que só podem ser admitidas aquelas que possuam as notas características de SANTIDADE, BELEZA e UNIVERSALIDADE. Em grau sumo, o canto gregoriano cumpre esses requisitos e por isso é chamado o "modelo soberano" da música sacra. Seguem-se em importância a polifonia sacra, e depois as outras formas musicais mais contemporâneas. Em nossos tempos, brilham compositores como Marco Frisina e, especificamente no Brasil, os trabalhos do Padre José Weber e de Clayton Dias.
Rezemos para que a música sacra ressoe cada vez mais em nossas Igrejas e cantemos sempre ao Senhor um canto novo de louvor.