Após quase um ano de minuciosa preparação espiritual e logística, seminaristas que cursam a etapa da teologia no Seminário Maior Beatos Manuel e Adílio, pertencente à Diocese de Frederico Westphalen, participaram ativamente da Semana Missionária realizada entre os dias 13 e 16 de outubro. Pelo fato de residirem na capital gaúcha durante o período dos estudos teológicos, os formandos integraram a ação promovida pelo Conselho Missionário de Seminaristas (COMISE) da Província Eclesiástica de Porto Alegre. A iniciativa reuniu estudantes ao sacerdócio de Frederico Westphalen, Montenegro, Caxias do Sul, Novo Hamburgo e Osório, juntamente com a anfitriã, a Arquidiocese de Porto Alegre.
A ação pastoral teve como sede a Paróquia São João Maria Vianney, situada no município de Viamão. Inspirada no Evangelho de São João, a semana adotou o tema «Um em Cristo, unidos na missão» e o lema «Para que o mundo creia», inserindo-se plenamente no contexto do mês dedicado às missões em toda a Igreja universal.
Para garantir a eficácia do trabalho, os dias que antecederam a abertura foram marcados por intenso planejamento: realizou-se a divisão do território paroquial por meio de mapas, a produção e encadernação de um manual de bênçãos próprio para as visitas, a formação das duplas missionárias e uma vigília contínua de oração pelas famílias que seriam contatadas. Durante a tarde, os seminaristas percorreram as ruas no apostolado de porta em porta, abençoando os lares, dialogando com os moradores e distribuindo material informativo com os horários das celebrações locais e os convites para os encontros noturnos.
O cronograma diário culminava ao entardecer com a celebração da Santa Missa, enriquecida pela reflexão pastoral conduzida pelos seminaristas. Toda a atividade foi realizada em estreita sintonia com o pároco local, Padre Marcus Ceratti, contando com o acolhimento, a oração e a retaguarda constante de lideranças leigas que acompanharam os jovens pelas comunidades. Para concluir a noite presidida pela diocese, o seminarista do primeiro ano de teologia - Rodrigo Wagner -, conduziu a formação nestes termos:
FORMAÇÃO DOUTRINÁRIA: A VOCAÇÃO DO AMOR E A DIGNIDADE DA SEXUALIDADE HUMANA
O mistério da criação atesta que o ser humano foi plasmado à imagem e semelhança de Deus. Sendo Deus a plenitude do próprio amor, o homem e a mulher recebem a vocação indelével de refletir esse atributo divino na história, assumindo a caridade como regra de vida. Essa vocação não se restringe a uma abstração espiritual ou sentimental, visto que a criatura humana não é apenas alma, mas uma unidade substancial e indivisível entre corpo e espírito. Por conseguinte, a corporeidade participa plenamente da dignidade da pessoa e do imperativo moral de amar.
Esse corpo encarnado apresenta-se de maneira complementar na masculinidade e na feminilidade. Não se trata de uma distinção aleatória, mas de um desígnio providentemente ordenado à comunhão. A afetividade e a sexualidade são forças vitais chamadas a estabelecer não apenas a conjunção passageira de duas carnes, mas a profunda comunhão interpessoal de duas almas. Tal compromisso exige o exercício lúcido da liberdade e da razão, pelas quais o sujeito decide se doar inteiramente ao outro, acolhendo-o em sua totalidade irrepetível.
Dessa autêntica doação mútua decorre a fecundidade genuína. No sacramento do matrimônio, o amor conjugal transborda na busca incansável pela santidade mútua e na generosidade de gerar novas vidas. O matrimônio revela sua sacralidade justamente ao participar da soberania criadora: da aliança legítima entre um homem e uma mulher emerge alguém dotado de uma alma imortal, alguém que passa da não existência para a existência eterna. Toda criança carrega o direito fundamental de receber o cuidado amoroso de um pai e de uma mãe, e é na estabilidade dessa referência familiar que os filhos compreendem, de modo sensível e concreto, a paternidade do próprio Deus.
Em sentido oposto, desvios éticos contemporâneos ferem mortalmente a grandeza desse plano. A pornografia agride o pudor e degrada a imagem do ser humano ao expor intimidades e reduzi-las à condição de mercadoria consumível, distorcendo o corpo em um objeto desprovido de transcendência. De forma análoga, a prática do autoerotismo desvirtua a dimensão relacional do corpo, aprisionando o indivíduo em um ciclo solitário e egocêntrico que anestesia as habilidades sociais e instaura a ilusão prepotente de suficiência absoluta, como se a pessoa não dependesse do próximo nem de Deus.
Conforme a exortação apostólica da caridade descrita pelo Novo Testamento, a vivência do amor genuíno jamais é possessiva ou estéril, mas paciente, solícita e desprendida. Na união matrimonial e na vida comunitária, enquanto a corporeidade se abre à geração e acolhimento dos filhos carnais, o espírito amadurece para transmitir valores, fé e bênçãos espirituais. A entrega generosa de si ao bem alheio replica a atitude de Cristo, que se doou na cruz para a redenção integral da humanidade. É nessa entrega despretensiosa e profunda que a pessoa humana encontra sua verdadeira estatura, conformando seu coração ao coração de Deus e autenticando a sua identidade cristã perante o mundo.
A Semana Missionária e as catequeses formativas demonstram que a vitalidade pastoral da Igreja não reside no ativismo vazio, mas na integração harmônica entre fé e testemunho de vida. Quando o anúncio do Evangelho cruza os umbrais das residências para acolher a realidade do povo e, simultaneamente, oferece sólida formação antropológica sobre a dignidade do corpo e do amor sagrado, a Igreja cumpre sua vocação primordial: resgatar a integridade das famílias e revelar a presença viva de Cristo no coração da sociedade.