Há uma célebre frase atribuída a Dostoiévski que diz muito da relação humana com o tempo: “as pessoas têm coisas lindas para dizer sobre você, mas você precisa morrer primeiro”. Por mais forte que seja, há uma grande sabedoria contida nesse dito que é pouco explorada, a saber, a fugacidade do amanhã.
O amanhã é uma categoria inexistente enquanto fato objetivo, afinal, ele é puro devir. Ninguém sabe o que irá ocorrer no dia seguinte e sequer se chegará a acontecer alguma coisa. Falar do amanhã é alimentar uma expectativa sobre aquilo que talvez nunca vivamos. É diferente da esperança, porque esta não se apoia na certeza de que aquilo que desejamos acontecerá, mas na certeza daquele em quem depositamos nossa confiança. Além disso, o amanhã nem sequer pertence a Deus, pois nosso Criador vive o eterno presente e não está submetido ao “cronos”; não conhece o amanhã como nós o conhecemos. Portanto, falar do amanhã é especular sobre o vazio, o transitório, o inexistente.
Contudo, em nossas relações e até nas conversas, parece que sagramos o amanhã como uma categoria necessária, como se pudéssemos obrigar Deus a nos dar mais um dia, mais uma chance. É comum ouvirmos: “amanhã nos veremos”; “até amanhã”; “deixa para amanhã”. Contudo, e se o amanhã não chegar? E se não houver outra chance? Veja que não estamos defendendo a necessidade de viver tudo no hoje, nem de realizar imediatamente tudo o que é necessário fazer. Ao contrário, cada coisa tem seu tempo e seu dia. É preciso considerar que, para trabalhar, estudar, amar e rezar, só temos a certeza de fazê-lo no instante presente, nem sequer no hoje. Eis o ponto fulcral da nossa reflexão. Além disso, planejar o amanhã não é um problema, todavia, esse começa quando transformamos o planejamento numa necessidade, em uma presunção. Temos de ser organizados e considerar tarefas do “amanhã”, todavia, não podemos transformar nossos planos em garantias. “Planejamos como homens que sabem que podem não chegar ao destino; esperamos como aqueles que sabem que o futuro pertence a Deus”.
Vivemos em um contexto marcado pelo imediatismo e pela funcionalidade das coisas, em que tudo precisa ser utilitário. Não possuímos tempo para nada e queremos ter um dia com 25 horas. Vivemos mergulhados no fazer. Esquecemos que nosso tempo é precioso e que ele está em função de nós, e não o contrário. O tempo nos é dado para que possamos realizar a vontade de Deus em nossas vidas e procuremos santificar as realidades passageiras da melhor forma possível. Mas o tempo acaba. Acabou. Acabará. Se não integrarmos nossa vivência no hoje de Deus, passaremos nossa vida tentando viver. Temos o hoje para ser felizes e sofrer, amar e nos doar, conhecer e nos despedir. Não sabemos o que acontecerá depois, e essa regra básica da vida é objeto de esquecimento para muitos.
Lembremos que o amanhã é uma falsa prioridade em nossa vida, não precisamos dele. Se quisermos dizer a alguém que o amamos, façamo-lo. Se buscamos conhecer coisas novas, lugares diferentes, não deixemos para depois. É agora a hora. Saber integrar isso na vida significa entender que tudo pode passar e que deixaremos de viver, mas, ao mesmo tempo, lembrar que podemos fazer todas as coisas do mundo, mas nem tudo nos convém. Ou seja, quando falamos que só temos o hoje para viver, é preciso entender que a prudência deve regular tais ações, a justiça deve ser empregada para com cada um, e o amor deve ser a forma de “dar ao outro aquilo que é meu por direito”.
É preciso dizer “eu te amo” hoje. Abraçar seu pai ou sua mãe agora, afinal, não sabes se os verá depois. É necessário saber perdoar as mágoas e deixar-se ser perdoado. Em suma, é primordial viver na plenitude do agora com Deus, afinal, sem Ele tudo é vazio, sem sentido; tudo é nada.
Planejar o amanhã não é um problema, todavia, esse começa quando transformamos o planejamento numa necessidade, em uma presunção. É preciso ser organizado e também considerar tarefas do “amanhã”, todavia, não podemos transformar nossos planos em garantias. “Planejamos como homens que sabem que podem não chegar ao destino; esperamos como aqueles que sabem que o futuro pertence a Deus”.
O “hoje” é o lugar de encontro com Deus e o instante que Ele quer te amar e ser amado. Deus não nos encontra no amanhã que projetamos na nossa cabeça, é agora que Ele nos chama à conversão e à santidade. Sua graça nos alcança nesse instante, mas, cuidado, se não dermos atenção, podemos deixar que ela passe. Deus se manifesta extraordinariamente no ordinário. Enfim, a morte não é o fim, mas apenas o começo de uma eternidade que tem as grandes promessas da felicidade, de Deus, do eterno “hoje”. Lá nunca cansaremos de contemplar de maneira sempre nova a Deus; cada “instante” será um momento de amar e conhecer. Cada instante será um instante divino.