CRISTO REI E A POLÍTICA

03/11/2026 às 09:28h

Nestes últimos meses, por motivos óbvios, a maioria de nós está bastante sensibilizada com as questões políticas. É verdade que mais emocionalmente do que racionalmente. Acaso alguém analisa detalhadamente as cartilhas dos partidos políticos e compara com o que pensa e deve pensar sobre os temas que precisam ser postos? Certamente, não! Com as luzes que brotam da Escritura, da Tradição e do Magistério, a Igreja, naquilo que lhe cabe, não é inerte neste aspecto da nossa vida e nem pode ficar. Ela não determina em quem se deve votar e, ao mesmo tempo, aponta a luz que guia a boa escolha, aquilo que em cada um se dá de dentro para fora. Em Lucas 17,21 Jesus disse que o Reino de Deus está entre vós, ou dentro de vós.  O reinado de Cristo é algo que se inaugura neste mundo. Ele tem a ver com a política, como nos orientamos em nossa política.

Acaso não é Cristo o que deve reinar nos nossos corações? Acaso os que legislam, executam e julgam não têm coração, inteligência e vontade? Acaso não é Cristo o que deveria reinar em seus corações, ser a luz a guiar os seus atos? Dizem que o estado é laico, mas como poderia ficar tapado a um Deus que morreu na cruz? Um pouco antes de ser crucificado, Jesus disse: "o meu Reino não é deste mundo" (Jo 18,36) e, também, "fogo vim lançar sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso" (Lc 12,49). De fato, o Seu Reino deve começar neste mundo e, para isso, contamos com Sua Graça e com Igreja. A Igreja, seguindo o mandato do Senhor para inaugurar o seu reino neste mundo, confeccionou ao longo do tempo um ensino para guiar as ações dos cristãos e de todos os homens de boa vontade nos âmbitos social, político e econômico. É o chamado Ensino Social da Igreja. Deste, aqui destacamos brevemente os seus princípios ou fundamentos. Eles se encontram ao longo dos seus documentos e reunidos no Compêndio da Doutrina Social da Igreja, acessível na Internet.

O primeiro princípio é o do bem comum. Este não é a simples soma dos bens dos sujeitos sociais. É um bem quando se compartilha, e é comum porque unicamente juntos se pode lograr e desfrutar dele. É o bem de todo o homem e de todos os homens. A responsabilidade sobre ele é principalmente dos poderes públicos, mas não elimina a dos indivíduos e associações. Ele se realiza na prestação dos serviços essenciais para o normal desenvolvimento da vida humana - alimentação, moradia, trabalho, liberdade religiosa, educação, cultura, informação, saúde, etc.. Além do empenho pela paz, a organização dos poderes do Estado e a proteção do meio ambiente, envolve o cuidado de todas e cada uma das vidas, desde a concepção até sua morte natural. Vê-se que o bem comum responde às profundas inclinações naturais do homem.

O segundo princípio é o da destinação universal dos bens e a propriedade privada. A dignidade inalienável de todo ser humano o faz credor dos bens terrenos necessários para seu desenvolvimento. E a natural sociabilidade humana mostra que ninguém é alheio ao bem dos demais. Deus destinou a terra e quanto ela contém para o uso de todos os homens e povos. Daqui brota o direito à propriedade privada. O legítimo proprietário deve ter em conta as consequências sociais de dito uso e destiná-los à promoção do bem comum, além do benefício pessoal e familiar. Já é bem conhecida a frase de São João Paulo II: “sobre toda propriedade privada pesa uma hipoteca social” (Laborem Exercens, n. 14, e Sollicitudo Rei Socialis, n. 42). Por isso, a propriedade privada não é um direito absoluto, está subordinado a seu original destino comum. Significa que possuir os bens não é moralmente indiferente. Tem a função de crescimento dos outros. O mesmo vale para as nações, que devem atuar favorecendo o desenvolvimento de todos os povos. E também vale para os bens culturais e espirituais. Isso não justifica que alguns fiquem de braços cruzados. Quem não se esforça por progredir, não respeita nem mesmo sua própria dignidade.

O terceiro princípio é o da Solidariedade. Ele expressa a singular inter-relação dos seres humanos, sua natural sociabilidade, a unidade da origem do gênero humano, como fundamento de um destino comum ou a comum filiação divina. É fruto do reflexo da vida divina em nós. Muito ligado ao primeiro princípio, mostra que o desenvolvimento é de todos ou de ninguém. A solidariedade é também uma virtude, isto é, uma determinação firme e perseverante de empenhar-se pelo bem comum. Como toda a virtude humana, para a solidariedade requer-se formação.

E, por último, o princípio da subsidiariedade e participação. Para a promoção da dignidade humana na vida social é preciso favorecer as iniciativas dos diversos grupos humanos. Assim, o Estado e as associações maiores não devem substituir o dinamismo, a liberdade e a responsabilidade das pessoas e das associações menores. Antes, devem promover, subsidiar, incentivar. A participação está ligada à subsidiariedade e supõe a exigência de realizar a própria parte na edificação do bem social. Por isso, é preciso facilitar a prática de quem tem dificuldade de vivê-la. Assim, é necessária uma profunda educação, tanto intelectual, quanto moral. A participação é um direito e um dever.

Junto a estes princípios, tem-se apresentado o da opção preferencial pelos pobres. Algo mal compreendido por algumas ideologias que teorizam a sociedade estratificada em diferentes classes em permanente conflito, sendo que as de baixo devem lutar contra as de cima, sem espaço para a caridade. Em contrapondo ao entendimento destas ideologias, é preciso abrir os olhos e ver que a Igreja atende aos pobres desde os seus inícios. Inclusive para isso ela criou e desenvolveu os hospitais, orfanatos, asilos, numerosíssimas congregações religiosas se encarregaram neste serviço, com pessoas que deram até a própria vida. Como exemplo podemos citar a Ordem dos Clérigos Regulares Ministros dos Enfermos, com São Camilo de Lellis, as Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, com seu fundador, entre outras instituições para pessoas carentes, além de promover amplamente as obras de caridade ao longo de sua história.

Pode-se notar que a Doutrina Social da Igreja orienta pela Via da Caridade. É aquela força profunda que completa e ultrapassa a justiça, e vivifica a convivência humana. É a força de Deus. O apelo à caridade é insubstituível. Somente ela pode bem animar e modelar o agir social no mundo em que vivemos. Este agir não é apenas individual, mas também característico das forças institucionais. Deste modo, o Reino de Cristo não é um acordo comunitário dado nalgum lugar específico. O Reino se refere ao ato em que Deus reina. O Reino de Deus é o que pertence aos pobres em espírito, ou seja, daqueles que em primeiro lugar põem sua confiança e sua esperança no Senhor. Ali é onde e por onde Deus primeiro reina.

Assim, a indigência dos pobres exige um suplemento de predileção para satisfazer a justiça, com uma caridade que inspire a todo o tecido social. Caridade que é antes de tudo amor a Deus e, por Ele, também amor aos mais necessitados. Enfatiza-o a Sagrada Escritura, os Padres da Igreja e isto é repetido com insistência pelo Magistério social moderno. Os pobres são a nós confiados e com base nesta responsabilidade seremos julgados no juízo final (Mt 25, 31-46). Ao se falar na opção por eles, não se aponta para um igualitarismo ilusório, nem para a opção exclusiva ou excludente, mas preferencial. A saída dos pobres da sua situação não pode depender de um efeito residual das sociedades opulentas. A quantidade de bens não determina necessariamente a sua justa distribuição e a ausência da miséria. Isto não é cristão e nem realista. Deve-se realizar um importante esforço mental e prático, educativo e técnico, engenhoso e realista, para elaborar formas superiores de justiça e de solidariedade, e idear e aplicar uma ajuda eficaz a quem se encontra em condição de indigência, inclusive para que saia desta mesma situação definitivamente.

Dom Antonio, numa das cartas sobre as eleições deste ano, solicitou que não houvesse tendenciosamente recortes na Doutrina Social da Igreja. Há uma grande riqueza desta doutrina a ser estudada e praticada, cada parte unida em seu conjunto e dentro da Tradição da Igreja. Seus princípios orientam a ação social e política e adiantam o triunfo do Reino de Cristo.

 

Fonte: Cônego Elisandro Fiametti