A EXPERIÊNCIA DO MAL NA VIDA PRESENTE

02/10/2026 às 09:41h

A experiência do mal faz parte da vida de todos nós. Em algum momento, todos nos deparamos com a dor, a doença, a perda de alguém querido, uma injustiça ou alguma situação que parece não ter explicação. Nessas horas, surgem perguntas difíceis: por que isso aconteceu? Por que existe tanto sofrimento? Por que uma pessoa boa precisa passar por uma doença ou por uma grande provação? São perguntas que acompanham a humanidade há muito tempo. Santo Agostinho também passou por essa busca. O Catecismo da Igreja Católica recorda suas palavras: “Procurava a origem do mal e não encontrava solução” (CEC, 385). Diante do sofrimento, o cristão não precisa fingir que não existe dor. A fé não nos manda fechar os olhos diante do sofrimento. Pelo contrário, ela nos permite olhar para ele com seriedade, mas também com esperança. Sabemos que Deus é bom e que tudo aquilo que Ele criou é bom. O Catecismo afirma: “Deus é infinitamente bom e todas as suas obras são boas. No entanto, ninguém escapa à experiência do sofrimento, dos males da natureza – que aparecem como ligados aos limites próprios das criaturas –, e sobretudo à questão do mal moral” (CEC, 385). Mas, se Deus é bom, de onde vem o mal? Essa é uma das perguntas mais profundas da existência humana. O Catecismo nos ensina que “o mistério da iniquidade só se esclarece à luz do ‘mistério da piedade’” (CEC, 385). Em outras palavras, não conseguimos compreender o drama do mal olhando apenas para o sofrimento. Precisamos também olhar para Deus e, de modo especial, para Jesus Cristo. É n’Ele que encontramos a luz para atravessar aquilo que muitas vezes não conseguimos compreender. Mas afinal, o que é o mal?  Muitas vezes pensamos no mal como se fosse uma espécie de força que existe por si mesma e que estaria em oposição a Deus. A fé cristã nos ensina algo diferente. O mal não é uma “coisa” criada por Deus. Deus criou todas as coisas e, como ensina a Sagrada Escritura, viu que eram boas. Santo Tomás de Aquino explica que “todo mal funda-se em algum bem” (Cf. Suma Contra os Gentios, III, 11, n. 1952). Isso quer dizer que o mal não é uma coisa criada por Deus. Ele aparece quando algo bom é ferido, desordenado ou privado de algo que deveria possuir.  Pensemos, por exemplo, em uma doença: ela é uma desordem na saúde, que é o bem que aquela pessoa deveria possuir. Assim também acontece com outras formas de mal. O mal é a falta de um bem, mas precisa existir em alguma realidade que, em si mesma, continua sendo boa, pois o mal em si mesmo não existe. Essa compreensão está em harmonia com o ensinamento perene da Igreja de que cada criatura possui “a sua bondade e perfeição próprias” e de que a criação, saída da bondade divina, é boa (Cf. CEC, 339). Por isso, quando falamos do mal, é importante distinguir duas realidades. Existe o mal físico ou natural, como a doença, a dor, a morte e outros sofrimentos ligados aos limites da nossa condição humana. E existe o mal moral, que acontece quando usamos mal a nossa liberdade e escolhemos aquilo que é contrário ao bem e à vontade de Deus. Essa distinção é importante porque nem todo sofrimento é consequência de um pecado pessoal. Quando alguém fica doente, sofre um acidente ou passa por uma grande tragédia, não podemos simplesmente concluir que essa pessoa está sofrendo porque fez algo de errado. O sofrimento faz parte da condição humana e, muitas vezes, permanece um verdadeiro mistério. O mal também pode nascer das nossas escolhas Deus nos deu inteligência, vontade e liberdade. Somos capazes de conhecer o bem e escolhê-lo. Mas também podemos escolher o contrário. Todos nós conhecemos situações assim. Sabemos que deveríamos perdoar, mas preferimos guardar ressentimento. Sabemos que deveríamos dizer a verdade, mas escolhemos mentir. Sabemos que determinada atitude pode nos afastar de Deus, mas mesmo assim a praticamos porque naquele momento ela parece mais agradável ou mais fácil. É justamente aqui que aparece o pecado. O problema não está simplesmente nas coisas que desejamos. Muitas coisas criadas por Deus são boas. O problema acontece quando colocamos um bem menor acima de um bem maior ou quando buscamos alguma coisa de maneira desordenada. Santo Agostinho explica que “cometer o mal não é nada mais do que submeter a própria vontade às paixões, ou preferir aos bens propostos pela lei eterna uma satisfação pessoal, inferior” (O livrearbítrio, I, 9, 19). Por isso, as paixões e os desejos, em si mesmos, não são pecados. Eles fazem parte da nossa humanidade. O problema aparece quando não são orientados pela razão e pela vontade para aquilo que é verdadeiramente bom. É por isso que o Sacramento da Reconciliação é tão importante na vida cristã. Na Confissão, Deus não apenas perdoa os nossos pecados: Ele nos reconcilia consigo, restaura a nossa amizade com Ele e nos concede a graça necessária para continuar lutando contra o pecado e buscando o bem. A verdadeira liberdade Às vezes pensamos que ser livre significa simplesmente poder fazer aquilo que queremos. Mas será que toda escolha nos torna realmente livres? Uma pessoa pode escolher aquilo que deseja e, mesmo assim, acabar presa a um vício, a um pecado ou a um comportamento que destrói a própria vida. Por isso, a verdadeira liberdade não consiste simplesmente em fazer tudo o que temos vontade. Ser livre é também ter a capacidade de escolher o bem. A liberdade é um grande dom de Deus, mas está ligada à verdade. São João Paulo II ensinou que o homem pode procurar uma “ilusória liberdade fora da própria verdade” (Veritatis Splendor, n. 1). Quando nos afastamos da verdade e do bem, podemos pensar que estamos sendo livres, quando, na realidade, estamos nos tornando escravos de nossas próprias escolhas, dos nossos próprios caprichos, vaidades, gostos e prazeres. O egoísmo está enraizado na opção que contraria a Deus, portanto, está na falsa liberdade. Só há liberdade na verdade. Só há paz em Cristo. Fora encontraremos apenas nossa ruína e fracasso, pois nós, quando optamos pelo pecado, recusamos Deus livremente. Por isso, o Catecismo explica que “o pecado é um abuso da liberdade que Deus dá às pessoas criadas para que possam amá-Lo e amarem-se mutuamente” (CEC, 387). Desde o início da história humana, encontramos essa tentação. O pecado original consiste justamente em preferir a si mesmo (egoísmo) numa desobediência a Deus por puro orgulho, donde surge a malícia humana. Em resumo, ao pecar, Adão quis colocar-se no lugar de Deus e buscar sua realização sem Deus. Essa tentação continua presente. Muitas vezes queremos construir nossa vida como se Deus não fosse necessário. Queremos amar sem Deus. Queremos perdoar, sem Deus. Queremos fazer o bem, sem Deus. O resultado disso está aí a nossas vistas nesse mundo cada vez mais perverso. Apesar disso nossa liberdade continua existindo, mesmo ferida pelo pecado. Por isso, precisamos da graça de Deus, que fortifica nossa vontade e inteligência para optarmos pelo Bem, mesmo em situações difíceis. De fato, depois do pecado original, a natureza humana está “ferida nas suas próprias forças naturais, sujeita à ignorância, ao sofrimento e ao império da morte, e inclinada ao pecado” (CEC, 405). Agora, precisamos suplicar a Deus pela perseverança na vida de oração, para que nos cure e nos chame para si no dia final de nossas vidas. Deus não nos abandona diante do mal É justamente nessa situação de fragilidade das nossas capacidades feridas pelo pecado que encontramos uma das maiores verdades da nossa fé: Deus não abandonou a humanidade. Deus veio ao nosso encontro em Jesus Cristo. Ele entrou na nossa história, assumiu a nossa humanidade e experimentou também o sofrimento. Na Cruz, Jesus não respondeu ao mal com outro mal. Ele não venceu pela violência, mas pelo amor. A Cruz parecia ser uma derrota. Jesus foi rejeitado, condenado e morto. Aos olhos humanos, tudo parecia ter terminado ali. Mas Deus transformou a Cruz em caminho de salvação. Da morte de Cristo nasceu a nossa redenção, e da Ressurreição nasceu a esperança da vida eterna. A Igreja afirma que “do maior mal moral jamais praticado, como foi o repúdio e a morte do Filho de Deus [...] Deus, pela superabundância da sua graça, tirou o maior dos bens: a glorificação de Cristo e a nossa redenção (...) “Mas nem por isso o mal se transforma em bem” (Cf. CEC, 312). Isso é fundamental. A fé cristã não ensina que a doença é boa, que a injustiça é boa ou que a morte é boa. O sofrimento continua sendo sofrimento. O mal continua sendo mal. O que a fé nos ensina é que Deus é capaz de agir também no meio do sofrimento e tirar dele um bem maior. Por isso, não precisamos encontrar uma explicação imediata para cada sofrimento que enfrentamos. Existem dores para as quais não encontramos respostas completas nesta vida. Reconhecemos pela Fé que “a permissão divina do mal físico e do mal moral é um mistério”. Mistério este que Deus esclarece “por seu Filho Jesus Cristo, morto e ressuscitado para vencer o mal” (Cf. CEC, 324). Talvez não consigamos compreender por que determinada doença aconteceu, por que uma pessoa querida morreu tão cedo ou por que determinada injustiça permitiu que acontecesse. Mas sabemos que Deus não permanece distante diante da nossa dor. Ele se aproximou de nós em Jesus Cristo e, na Cruz, mostrou que o sofrimento e a morte não têm a última palavra. Por isso, quando passamos por momentos difíceis, podemos olhar para Cristo. A Cruz nos lembra que Deus conhece o sofrimento humano. A Ressurreição nos lembra que a morte não é o fim. O mal é um mistério. O sofrimento também. Mas, para o cristão, eles não são a última palavra. A última palavra é o amor de Deus. Como dizia Dom Henrique Soares da Costa, de saudosa memória, em uma de suas magnificas homilias: “Oh cristão! Tu não foste feito para rastejar, tu foste criado para voar alto como as águias até o Coração do Pai”. É para esse Coração que caminhamos. E é justamente por isso que, mesmo no meio das maiores dificuldades, o cristão pode continuar esperando: Deus é maior que o nosso sofrimento, maior que o nosso pecado e maior que a própria morte. 

Fonte: Seminarista Henrique de Oliveira Gomes, 1° ano de Teologia