No Evangelho segundo São Mateus, os discípulos perguntam a Jesus: “Quem é o maior no Reino dos Céus?” (Mt 18,1). A resposta de Cristo surpreende. Ele chama uma criança, coloca-a no meio deles e afirma: “Se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18,3).
Essa passagem, especialmente significativa no mês de outubro, quando nosso olhar se volta de modo particular às crianças, vai muito além de uma referência à infância. Jesus apresenta a criança como sinal de uma atitude interior necessária para quem deseja viver segundo a lógica do Reino de Deus.
Cristo não nos convida à infantilidade, à ingenuidade ou à fuga das responsabilidades. O que Ele propõe é uma verdadeira conversão do coração. Tornar-se como criança significa reconhecer-se pequeno diante de Deus, abandonar a pretensão da autossuficiência e reaprender a viver como filho.
No contexto bíblico, a criança não ocupava uma posição de poder ou prestígio. Era dependente, necessitava de cuidado e recebia dos outros aquilo de que precisava para viver. Ao colocá-la no centro, Jesus inverte a lógica dos discípulos, que estavam preocupados em saber quem seria o maior.
O Reino dos Céus não pertence àquele que se considera superior, mas àquele que sabe reconhecer que tudo recebe de Deus.
Aqui encontramos uma dimensão essencial da vida cristã: a filiação divina.
São Paulo afirma: “Recebestes um espírito de adoção, no qual clamamos: Abba, Pai” (Rm 8,15). Em Cristo, não somos apenas criaturas diante de um Deus distante; somos chamados a viver como filhos diante de um Pai que ama, sustenta e conduz.
Ser como criança é, portanto, aprender a confiar.
Ao longo da vida, especialmente na idade adulta, somos tentados a acreditar que precisamos controlar tudo: o futuro, nossos projetos, as pessoas, as circunstâncias e até mesmo a maneira como Deus deveria agir em nossa história. A infância espiritual nos ensina outra atitude: fazer responsavelmente aquilo que nos cabe e confiar ao Senhor aquilo que ultrapassa nossas forças.
Essa confiança não é passividade. É fé.
É poder dizer, mesmo diante daquilo que não compreendemos: “Senhor, eu não entendo tudo, mas confio em Ti.”
A criança também nos recorda a humildade de quem sabe que precisa do outro. Na vida espiritual, essa humildade significa reconhecer que precisamos da graça de Deus para amar, perdoar, perseverar, recomeçar e permanecer fiéis.
A santidade não é uma obra construída apenas pelo esforço humano. Ela é resposta à graça.
Por isso, Jesus também afirma: “Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele” (Mc 10,15). A palavra “receber” é fundamental. O Reino é, antes de tudo, dom.
Essa espiritualidade encontra uma expressão muito concreta naquilo que a tradição cristã chama de infância espiritual. Santa Teresinha do Menino Jesus compreendeu profundamente esse caminho ao falar de sua “pequena via”: confiar na misericórdia de Deus e buscar a santidade não necessariamente por meio de grandes feitos, mas pela fidelidade amorosa nas pequenas coisas.
E talvez seja justamente aí que esse Evangelho toca a nossa vida ordinária.
Muitas vezes pensamos a santidade como algo reservado a acontecimentos extraordinários. Entretanto, Deus normalmente nos encontra no cotidiano.
A santidade pode começar na paciência dentro de casa, na honestidade no trabalho, no cuidado com uma pessoa enferma, na escuta de quem precisa falar, na disposição de pedir perdão, no esforço para não responder com agressividade, na fidelidade à oração, no cumprimento dos deveres e na prática silenciosa da caridade.
São pequenas escolhas que, feitas com amor, tornam-se grandes diante de Deus.
A infância espiritual também nos ensina a aceitar que nem sempre teremos respostas para tudo. A vida possui perdas, incertezas, dificuldades e situações que escapam ao nosso controle. Nessas horas, a confiança filial não elimina a dor, mas nos impede de atravessá-la sozinhos.
Ser filho significa saber que, mesmo quando não compreendemos o caminho, Deus continua sendo Pai.
Há, portanto, uma grande diferença entre ser infantil e possuir um coração de criança. A infantilidade foge da responsabilidade; a infância espiritual assume a responsabilidade confiando em Deus. A infantilidade deseja que tudo aconteça segundo a própria vontade; a infância espiritual aprende a rezar: “Seja feita a vossa vontade.”
Talvez esse seja um dos maiores desafios da vida cristã: amadurecer sem perder a confiança, crescer sem perder a humildade e assumir nossas responsabilidades sem acreditar que tudo depende exclusivamente de nós.
Neste mês de outubro, ao olharmos para as crianças, somos convidados também a olhar para nossa própria relação com Deus.
Ainda sabemos confiar n’Ele?
Ainda reconhecemos que precisamos de Sua graça?
Ainda somos capazes de nos maravilhar com as pequenas coisas?
Conseguimos fazer o bem sem buscar reconhecimento?
Somos capazes de entregar ao Pai aquilo que não podemos controlar?
Jesus coloca uma criança no meio de seus discípulos e, através dela, revela uma das grandes verdades do Evangelho: a verdadeira grandeza começa quando o ser humano reconhece sua pequenez diante de Deus.
O caminho da santidade não consiste em tornar-se grande aos próprios olhos, mas em tornar-se cada vez mais filho.
E talvez seja essa a verdadeira maturidade cristã: viver cada dia, com todas as suas responsabilidades, alegrias e provações, conservando no coração a confiança simples de quem sabe que tem um Pai.
“Quem se fizer pequeno como esta criança, esse é o maior no Reino dos Céus” (Mt 18,4).