A CONSCIÊNCIA E SUAS DIFERENTES VISÕES

01/10/2026 às 14:38h

 Para começarmos o debate sobre a consciência, tomemos primariamente à visão da área fenomenológica, em específico, embasando-se na perspectiva de Edith Stein. Seguindo a fenomenologia steniana, a consciência deve questionar-se: como eu me dou conta de estar vivendo algo? Como percebo que vivo esse algo? Todavia, a consciência não é reflexão ininterrupta sobre nossos atos, mas, “quer dizer que sabemos, estamos cônscios do que está acontecendo por estarmos vivendo.[1]” O que se quer enfatizar é que, por exemplo, ao ver uma pessoa, tem-se consciência de vê-la, mesmo que não se faça um ato reflexivo sobre o estar cônscio e emita um juízo verbal, significando “eu a vejo”. Podemos verificar que “para a fenomenologia, consciência não é questão de reflexão, que é uma atividade específica de consciência. Há uma vida da consciência enquanto se dá o registro- em níveis diversos- do que vivenciamos.[2]”

            A consciência é “ver-se” ter as vivências das sensações e com isso dar-se conta de estar vivendo determinada sensação. A consciência é impositora. Pensemos em um barulho ao nosso redor, nós não buscamos reconhecer esse barulho, ele se impõem ao nosso sentido auditivo. No entanto, a área fenomenológica não abarca em sua completude, a relação da consciência e da manifestação de Deus. Para isso, é preciso utilizar-se de outra área do saber, que englobe a consciência e o seu relacionamento com Deus, esta é, a teologia.

            A teologia, que é a “crente busca da compreensão da fé[3]”, tem por seu objeto Jesus Cristo, Deus que se fez Homem, versando sobre o que Ele nos revelou e nos deu a conhecer sobre si mesmo. A questão da consciência no saber teológico, relaciona-se intimamente a área da moral. É dito que,

 

à consciência moral não encera o homem dentro de uma solidão instransponível e impenetrável, mas abre-o à chamada, à voz de Deus. Nisto, e em nada mais, se encontra o mistério e dignidade da consciência moral: em ser o lugar, o espaço santo no qual Deus fala ao homem.[4]

 

            A teologia encara a consciência como o lugar da intimidade com Deus. Nesse “espaço”, há a comunicação do que Ele quer transmitir ao homem, seja o modo como quer que ele viva, seja o amor que tem a cada filho seu, ou ainda, as leis necessárias a estabilidade social e humana; Deus comunica ao homem na sua consciência. Além disso, a consciência também é vista como um juízo moral sobre a o proceder pessoal.

 

É um juízo de absolvição ou condenação, segundo os atos humanos são ou não conformes a lei de Deus inscrita no coração. E é precisamente acerca do julgamento dos atos e, simultaneamente, do seu autor e do momento da sua definitiva atuação que fala o Apóstolo: “como se verá no dia em que Deus julgar, por Jesus Cristo, as ações secretas dos homens, segundo o meu evangelho” (Rm 2,16)[5]

 

            A consciência julga de maneira prática, dizendo o que deve ser feito e o que deve ser evitado. Todavia, ela não se fecha a isso, pode ainda julgar um ato que a pessoa humana já cometeu, emitindo se tal foi moral ou imoral. Em suma, o axioma de que “se deve fazer o bem e evitar o mal”, é um ótimo aliado nos juízos da consciência nos atos particulares. Quando realizamos algo bom, nossa consciência, se for reta, irá nos avisar que tal ato foi bom e, nos casos de atos maus, dar-se-á o mesmo.

            A consciência é a testemunha da pessoa humana, afinal como dissemos antes, ela é impositora. Ninguém dela pode escapar, e, por isso, várias vezes se houve dizer: “ele deve estar com a consciência pesada por ter cometido tal ato.” A consciência, na maioria das vezes, é testemunha da verdade do ato cometido. No entanto, ela pode também, por exemplo no caso de uma pessoa escrupulosa, ser o espaço da guerra infinita, onde não se chega a nenhuma resolução e fica-se na perene temeridade. Aqui verifica-se a importância da formação dos atos de consciência.

            Mesmo o ser humano que não é crente em Deus, tem a obrigação de cumprir deveres que são determinados pela lei natural. O homem é capaz de conhecer o bem e dirigir-se a ele. Sua consciência, lhe impõem um bem e este inclina a busca-lo. Todavia, esse bem deve ser direcionado ao Sumo Bem, pois, é tendo Ele como norte que a consciência será formada e não cairá em ciladas. Formar a consciência, nada mais é que direcionar nossa vontade a agir bem, em conformidade com o Bem. Além disso, “a verdade sobre o bem moral, declarada na lei da razão, é reconhecida prática e concretamente pelo juízo da consciência, o qual leva a assumir a responsabilidade do bem realizado e do mal cometido.”[6] É no juízo prático da consciência, que se manifesta a liberdade e a adesão ao bem e a verdade.

 

Fonte: Diácono Eduardo Augusto Patatt Fucilini - Viamão, RS