CUIDAR DA MENTE TAMBÉM É CUIDAR DA VIDA À LUZ DA PALAVRA

02/09/2026 às 09:36h

Setembro nos convida a voltar o olhar para duas realidades que, embora possam parecer distintas, encontram-se profundamente no cuidado com a vida. Celebramos o Mês da Bíblia, tempo de renovar nossa intimidade com a Palavra de Deus, e vivenciamos também o Setembro Amarelo, que nos recorda a importância da conscientização sobre a saúde mental e da prevenção do suicídio.

Para nós, cristãos leigos e leigas, essa reflexão possui um significado especial. Vivemos nossa vocação no cotidiano: dentro de casa, no trabalho, nas comunidades, nas escolas, nas empresas, no campo, nas universidades e em tantos outros espaços da sociedade. É justamente nesses ambientes que encontramos pessoas carregando alegrias, esperanças, preocupações e também sofrimentos que, muitas vezes, permanecem silenciosos.

Em meio a uma sociedade marcada pela pressa, pela cobrança e pela necessidade constante de demonstrar que tudo está bem, precisamos reaprender uma atitude profundamente cristã, olhar verdadeiramente para o outro e saber escutá-lo.

A Sagrada Escritura não ignora o sofrimento humano. Pelo contrário, encontramos em suas páginas homens e mulheres que experimentaram medo, angústia, solidão, cansaço e profunda tristeza. Os Salmos, por exemplo, dão voz tanto ao louvor quanto ao sofrimento daquele que clama a Deus. A Bíblia nos mostra, assim, que apresentar nossas fragilidades ao Senhor não é sinal de ausência de fé.

Há uma passagem particularmente significativa no Primeiro Livro dos Reis. O profeta Elias, depois de enfrentar situações extremamente difíceis, chega a um momento de profundo esgotamento. Retira-se para o deserto e, debaixo de uma árvore, manifesta seu desejo de não continuar. Deus, entretanto, não responde com condenação ou cobrança. Antes de exigir que Elias retome sua missão, permite-lhe descansar e envia um anjo para oferecer-lhe alimento e água. Somente depois de ser cuidado, Elias encontra forças para continuar seu caminho (cf. 1Rs 19,4-8).

Essa passagem pode nos ensinar muito sobre o cuidado com a saúde mental.

Quantas vezes esperamos que alguém simplesmente “seja forte”, quando essa pessoa precisa, antes de tudo, ser acolhida? Quantas vezes oferecemos respostas rápidas quando o outro necessita de escuta? Quantas vezes julgamos uma dor que desconhecemos?

A fé não elimina automaticamente o sofrimento emocional. Da mesma forma, procurar acompanhamento psicológico ou psiquiátrico quando necessário não significa confiar menos em Deus. O cuidado profissional, a família, os amigos, a comunidade e a vida espiritual podem caminhar juntos. Cuidar da mente é também reconhecer o valor da vida que Deus nos confiou.

Nesse sentido, nossas comunidades são chamadas a ser lugares de acolhida. Nem sempre teremos respostas para a dor de alguém e não precisamos ter. Algumas vezes, a atitude mais importante será permanecer ao lado, ouvir sem julgar e ajudar aquela pessoa a procurar auxílio adequado.

Jesus também nos ensina a perceber quem está à margem. Ao longo dos Evangelhos, Ele não passa indiferente diante do sofrimento. Ele vê, aproxima-se, pergunta, escuta e acolhe. Para nós, portanto, cuidar do próximo significa também desenvolver sensibilidade para perceber quando alguém não está bem.

Mas esse cuidado começa igualmente conosco.

É necessário aprender a reconhecer nossos próprios limites. Descansar, cultivar relações saudáveis, reservar momentos para a oração, organizar nossa rotina, conversar sobre aquilo que sentimos e procurar ajuda quando percebemos que não conseguimos enfrentar determinadas situações sozinhos são atitudes de responsabilidade com a própria vida.

Neste Mês da Bíblia, talvez possamos assumir também um propósito diferente, não apenas ler a Palavra, mas permitir que ela eduque nosso olhar.

Que os Salmos nos ensinem que podemos falar com Deus sobre aquilo que realmente sentimos. Que Elias nos recorde que até aqueles que caminham com Deus podem experimentar profundo cansaço. Que Jesus nos ensine a perceber a dor escondida no rosto de quem está próximo.

E que nossas famílias, pastorais, movimentos e comunidades se tornem cada vez mais espaços onde alguém possa dizer “eu não estou bem” sem medo de julgamento.

O Setembro Amarelo nos recorda que algumas dores não são visíveis. O Mês da Bíblia nos recorda que Deus continua falando ao coração humano.

Talvez nossa missão, como leigos e leigas, esteja justamente no encontro dessas duas realidades, escutar a Palavra para aprender a escutar as pessoas; acolher o amor de Deus para aprender a acolher quem sofre; cuidar da nossa própria vida para também sermos presença de cuidado na vida do próximo.

Porque defender a vida não significa apenas protegê-la quando ela está ameaçada externamente. Significa também aproximar-se, escutar, acompanhar e ajudar a cuidar daquela vida que, silenciosamente, pede auxílio.

Neste setembro, que a Palavra de Deus ilumine nossos pensamentos, fortaleça nossos corações e nos torne mais atentos uns aos outros.

“O Senhor está perto dos corações feridos.” (cf. Sl 34,19)

Que nenhuma dor precise ser carregada sozinha. E que nossas comunidades sejam cada vez mais lugares onde a fé se transforme em presença, escuta, cuidado e esperança.

Fonte: Angela Maria Mendonça