Uns mais, outros menos, todos experimentamos sofrimentos e dores. E isso não tem a ver necessariamente com as pessoas serem ou não boas moralmente. Dizem: Ele é uma pessoa tão boa, e como pode ter tamanhos sofrimentos!? Ouvimos eventualmente esta pergunta. A verdade é que até conhecemos pessoas que parecem ter vindo ao mundo apenas para sofrer. Às vezes já nascem com um problema sério de saúde, uma paralisia, uma deficiência, alguma doença que traz grande peso à qualidade de vida. Outras vezes, sérios problemas aparecem logo na infância, é alguma doença degenerativa aqui, que pode trazer logo a morte ou levar anos de grandes penas. Ali algum sério acidente que deixa sofríveis sequelas. Acolá, os que nascem em ambientes degradantes econômica, social e moralmente. Há, de toda ordem, em todas as idades, dores e sofrimentos, frutos ou não de pecados cometidos por nós ou por outros. Sem falar das perdas, especialmente da morte, e das divisões e brigas entre as pessoas, mesmo dentro das melhores famílias. Nossa natureza caída é o que faz termos toda espécie de sofrimentos.
A fé ensina que o sofrimento entrou no mundo por causa do pecado. Deus, na sua bondade infinita e essencialmente gratuita, tinha preservado o homem da dor. O homem, se fosse fiel a Deus, do paraíso passaria ao céu, para eternamente gozar da felicidade com Deus. O pecado dos primeiros pais trouxe mudança nisso. Fez com que a natureza decaísse e com que houvesse o justo castigo. Era preciso agora que os seres humanos, para satisfazer seu orgulho, expiassem sua falta e pudessem se inclinar a evitar transgredir novamente, buscando a Deus. Portanto, o sofrimento, que tem aparência de um mal, torna-se reparação pelo mal praticado e previne novas transgressões.
Com a vinda de Cristo e sua morte na Cruz, as coisas ficam mais claras. Diz o teólogo AdolpheTanquerei, no seu livro A divinização do sofrimento: “Para reparar a ofensa infinita cometida contra Deus por nossos primeiros pais e por sua posteridade, o Filho de Deus consente em fazer-se homem, em tornar-se o representante da humanidade culpada, em assumir sobre si o peso de nossas iniquidades, em expiá-las (...), sobretudo, pela imolação do Calvário. Assim, o sofrimento é reabilitado, enobrecido e divinizado. Já não é mais somente um castigo, mas um ato de obediência aceito voluntária e generosamente por amor, um ato que, na pessoa de Jesus Cristo, tem um valor infinito. Por ele, Jesus glorifica a Deus muito mais do que o pecado o havia ofendido, e coloca o homem, sob vários pontos de vista, em um estado superior ao de Adão inocente.” Por este ato de Jesus, ele associou os nossos sofrimentos aos seus. De modo que nossos sofrimentos agora possuem um valor sem medida. São reparadores das nossas ofensas. Ao sofrermos com Jesus e por suas intenções, reparamos nossas faltas, e também as dos outros se assim o desejarmos, pedindo ao Senhor, por um ato de obediência e de amor. Reparamos e crescemos na perfeição. por isso que costumamos aconselhar a oferecer os sofrimentos nalguma intenção.
Não existe dia sem o seu sofrimento, os seus problemas, as suas cruzes. Negar a cruz de cada dia é negar a Cristo, não o seguir, não amar como ele amou. Por isso, não há que murmurar pelos sofrimentos que se nos acometem. Há, claro, sofrimentos que devemos evitar, como o deixar-nos piorar numa doença, sem cuidar, ou deixar que agridam uma pessoa que está sob nossos cuidados. Já os sofrimentos inevitáveis, dentre os quais temos os que vêm de uma vida de amor, devem ser acolhidos até com alegria. Com a cruz de cada dia, tomada a cada dia, ajudados pelos sofrimentos para as renúncias a nós mesmos, alcançamos seguir a Jesus. Como ele disse, quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz de cada dia e me siga. Por nossas próprias forças é impossível. Só é possível na graça de Cristo, quer dizer, na união com Ele. Pois há cruzes tão pesadas! Jesus as carrega conosco. A nossa Cruz participa da dEle. Completamos, como diz São Paulo (Cl 1,24), com nossas dores as dores de Cristo.
É a nossa cruz na Cruz de Jesus, o nosso sofrimento no de Cristo. De certo modo, com isso, participamos da obra redentora de Cristo. Por isso, os sofrimentos têm um quê de alegria. Já não são castigo, nem apenas reparação, são redenção e aperfeiçoamento nosso. Os sofrimentos que Deus permite ou manda para nós já se tornam sinal do seu amor. Ele nos atrai a Si e nos faz semelhantes a Ele. Depois da reparação, nos redimindo, Ele, pelo sofrimento dado, impulsiona-nos à perfeição, como o Pai Celeste é perfeito. Isso Jesus mandou. Os sofrimentos são uma mão na roda.
É assim que se pode, por fim, entender o que disse Jesus a Nicodemos: “Ninguém subiu ao céu, senão aquele que desceu do céu: o Filho do Homem. Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja elevado, a fim de que todo o que nele crer tenha a vida eterna. De tal modo Deus amou o mundo, que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna, pois Deus enviou o seu filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por meio dele.” (Jo 3,14-17). O que Jesus toca, diviniza. Que bela é a cruz de Jesus! Bela torna também a nossa, participante da dDle.
Temos no dia 14 deste mês a festa da exaltação da Santa Cruz. Há uma longa história da Cruz de Cristo que foi encontrada, celebrada, roubada, resgatada e dividida em partes pelo mundo. A Cruz de Cristo, anterior sinal de vexame, um castigo ignominioso, foi divinizada e hoje a adoramos. É que nela manifesta-se de modo eloquente o amor de Deus por nós e, atraídos, o convite a participarmos deste mesmo amor.