Se existe algo que frequentemente nos amedronta é o silêncio. Basta um olhar para o mundo ao redor e para o nosso mundo interior para perceber a necessidade constante de preencher cada hiato do dia com algum ruído: um vídeo curto, uma notificação, uma "olhadinha" rápida nas redes sociais. Pode ser apenas um sintoma da ansiedade quase onipresente em nossa sociedade. Contudo, pode ser também algo mais profundo. Não seria isso uma tentativa de fuga? Mas fuga de quê, exatamente?
Uma das maiores dificuldades do homem contemporâneo é encarar a realidade tal como ela é. Do lado de fora, somos bombardeados pelas guerras distantes e pelos conflitos que ocorrem talvez mais próximos de nós, em nosso país ou no seio de nossas próprias famílias. Das grandes tragédias às pequenas dificuldades do cotidiano, no exterior sentimos na pele a condição humana ferida pelo pecado. Esta é uma realidade por si só desagradável, e tendemos a querer escapar dela, revesti-la com ideologias, ao invés de encará-la com o devido olhar cristão, o olhar da Verdade.
Para piorar a situação, o lugar onde encontraríamos refúgio muitas vezes se torna um lugar ainda mais inquietante. Quando nos afastamos de Deus, ainda que alguns “centímetros”, adentrar a própria alma é como entrar em um quarto revirado pelas nossas próprias misérias e preocupações. Diante dessa bagunça, podemos ter diversas atitudes. Infelizmente, uma delas - e talvez a mais comum no homem dos nossos dias - é fugir apressadamente em busca de qualquer anestesia que mascare o sofrimento e silencie a nossa consciência.
Essa fuga de si é, em muitos casos, no fundo, uma fuga de Deus, que fala conosco no silêncio de nossa alma. Mesmo em meio aos estrondosos ruídos do mundo, reverbera em nós aquela voz que nos chama para perto, desejosa de curar as nossas feridas e arrumar o nosso "quarto bagunçado", e que por vezes contrasta com a vida que levamos, e isso nos inquieta. É justamente por isso que os santos viam no silêncio uma condição indispensável para a santidade, pois, como afirmou o venerável Fulton Sheen, “Deus ama-nos demais para nos deixar em paz com os nossos pecados”.
Mais ainda, São Josemaria Escrivá descrevia o silêncio como o “porteiro” da vida interior, e sem vida interior caímos na superficialidade do seguimento a Jesus e não avançamos para águas mais profundas. Esta vida interior é o quarto no qual Jesus nos manda entrar ao nos colocarmos em oração (Mt 6,6) e é especialmente ali que Deus conversa conosco, se revela a nós e nos revela a nós mesmos.
Escolher esse caminho de preservar ao menos alguns momentos de deserto é remar contra a maré. Vivemos imersos nas distrações que tentam nos manter curvados sobre o que é passageiro, aprisionando a nossa vontade aos desejos imediatistas e materialistas, às nossas paixões, às modas e relativismos de cada momento que nunca irão nos saciar, e que nos levam, em últimos casos, ao desespero. Esquecemos assim que não fomos criados para viver com o nosso olhar voltado somente para as necessidades terrenas, como os animais, conforme reconheceu o poeta Ovídio ao escrever que o Criador "deu ao homem um rosto elevado e ordenou-lhe contemplar o céu". Fomos feitos para o Alto, capazes de enxergar o brilho e a beleza do céu e ancorar a nossa vida nas coisas eternas, onde saciamos nossa sede de infinito, inscrita em nossa natureza.
Neste mês somos chamados a voltar o nosso olhar de maneira especial às Sagradas Escrituras. E algo fundamental para que possamos colher os bons frutos do contato com a Palavra é o silêncio - exterior e interior - que permite uma oração profunda e sincera, um verdadeiro diálogo com Deus por meio delas. Tenhamos como guias e intercessores, não somente neste mês, mas em nossas vidas de maneira especial São José e a Virgem Maria, nossos mestres do silêncio e da vida interior. Eles e os demais santos nos mostram o caminho para viver em um mundo agitado como o que temos hoje, sabendo viver profundamente este silêncio fecundo, que não se reduz a um mero isolamento, mas é na realidade reverência e prontidão à voz de Deus, que se transforma em entrega generosa a Ele e aos irmãos.
Cabe a nós a escolha - por vezes heroica - de calar esta algazarra e permanecer a sós com Ele, ao menos em alguns momentos do dia, substituindo alguma distração para colocarmo-nos junto Dele, conversarmos com Ele e ouvir a sua voz. É no silêncio preenchido pela presença de Deus que permitimos que o Senhor modele o nosso coração, os nossos pensamentos, os nossos afetos e desejos. Ali, ao calarem as vozes do mundo e a nossa própria voz, finalmente podemos ouvir o Verbo que se fez carne e habitou entre nós, e que deseja habitar em nossos corações e no coração de todos os homens.