UNS LEMBRAM DOS ERROS, MAS DEUS CONHECE O TEU CORAÇÃO
“Em tua vida terás muitos acertos que serão esquecidos; entretanto, teus erros dificilmente serão perdoados.”

01/07/2026 às 10:26h

A pessoa humana é, por natureza, um ser relacional, um animal político, no dizer de Aristóteles. As relações estabelecidas entre o “eu” e o “tu” são construtoras daquilo que conhecemos por sociedade ou comunidades. Contudo, é interessante notar como as relações se encontram, na atualidade, fragilizadas, distantes e muitas vezes marcadas pela ideia de serem “tóxicas”.

As experiências que se vivenciam enriquecem as ações e capacitam o ser humano para que tenha prudência no agir. Determinadas coisas erradas realizadas na fase da juventude dificilmente são repetidas na idade adulta, afinal, a pessoa aprende a agir de maneira diferente e, de certa forma, os erros tornam-se aprendizados que iluminam os caminhos da verdade. Contudo, dificilmente as pessoas esquecem os erros, as mágoas, as tristezas etc., que causaram a si mesmas ou que foram direcionadas a outros. O ser humano guarda essas marcas no coração e, por mais que possa perdoá-las, dificilmente consegue esquecê-las.

 A vida é um aprendizado constante e imediato; estamos, a todo momento, recebendo inúmeras informações e nem todas são processadas pela nossa inteligência. Os erros cometidos e as ofensas sofridas extrapolam a parte da cognição e encontram o campo do coração, ou seja, dos sentimentos. Nesse sentido, ao perceber a pessoa que foi ferida ou o nosso próprio “eu” que sofreu alguma mágoa, nossas paixões se afloram, e sentimentos de tristeza, rancor e até ódio podem vir à tona como uma explosão. Os erros são fatos que marcam intimamente as pessoas e modificam percepções, independentemente de serem pequenos ou grandes. Todavia, por que os erros ficam tão marcados e os acertos ou as benesses são tão esquecidos? O que há no ser humano que o faz agir assim?

Certa vez, um homem disse: “Sou um grande amigo seu. Porém, com a mesma espada com que eu te defendo, posso te ferir”. No fundo da questão, retorna-se à temática que desordenou o ser humano: o pecado original. Adão não conhecia o que era o mal, muito menos o que significava o pecado. Contudo, após comer do fruto do conhecimento do bem e do mal, este entrou no mundo e desordenou as paixões do homem. “Todos pecaram” (Rm 3,23), afinal, Adão (Ha-adam) representava todos os seres humanos. Nesse sentido, a natureza humana permanece inclinada pela concupiscência da carne e acostumada a fazer o mal que não quer, em vez do bem querido (Rm 7,19). O mal permanece mais lembrado que o bem devido a uma incapacidade humana, voluntária ou não, de transcender ao Bem Supremo.

 Jesus Cristo passou todo o tempo fazendo o bem na terra; toda a sua vida foi dedicada ao advento do Reino de Deus e à glória do Pai. Nada fazendo de mal, mostrou ao ser humano sua verdadeira natureza, límpida, sem mancha e aberta ao bem. Fazer o bem é amar, e o amor parece esquecido em nossos dias. Dificilmente alguém deseja amar no sentido pleno do termo, afinal, exige-se o sacrifício e o dom total de si. Amar é dar ao outro aquilo que é meu por direito; porém, muitas vezes, o “meu” ficou restrito ao ego, que diariamente é alimentado pelo narcisismo. Critica-se tanto o algoritmo na atualidade, mas muitas relações acabam sendo entrelaçadas de maneira tão aleatória quanto ele.

O bem precisa voltar ao seu devido lugar e, para isso, é necessário retomar a capacidade natural que temos de amar e de nos doar. É preciso compreender que uma vida bem vivida é relacional e comunitária, construída no “olho no olho” e não apenas na frieza das telas. O homem não foi criado para as telas, mas elas o atraíram da mesma forma que a serpente atraiu Eva. Porém, mesmo com toda essa proximidade artificial proporcionada por elas, a pessoa humana sente a necessidade de estar com o outro, de se relacionar e de caminhar junto.

A comunidade é o espaço para que nossas capacidades e dons possam ser desenvolvidos e valorizados. Além disso, a Igreja, comunidade dos batizados seguidores de Jesus, é o espaço de encontro com o Bem Supremo, que realiza nossa humanidade, elevando-a pela graça. A Igreja não nega o humano; ao contrário, reconhece a dignidade e o valor divino que este possui. Ser Igreja é ser comunidade; afinal, mesmo Jesus tendo-a fundado sobre Pedro, o fez com mais 11 que estavam seguindo-o.

É preciso compreendermos que o bem sempre vence o mal e que, por mais que seja difícil esquecer os erros, é necessário ressignificar o sentido deles, ou seja, à luz da Cruz de Cristo, transformá-los em verdadeiras vitórias que não impeçam o crescimento humano, afetivo e relacional com Deus. Imagine o que seria se Cristo tivesse revidado aqueles que estavam lhe chicoteando; será que seríamos perdoados e redimidos na cruz? Perdoar é uma palavra fácil de ser pronunciada e difícil de ser vivida. Perdoar é, etimologicamente, “entregar tudo”, “deixar tudo ir”, e é exatamente isso que a Cruz de Cristo nos convida a fazer. Quando Ele entrega sua vida na cruz, deixa ir nossos pecados, erros e todas as mágoas que cometemos, assim como continua fazendo no Sacramento da Confissão. Por isso, o que impede de perdoar? Perdoar não é esquecer; todavia, é “deixar ir” e parar de alimentar aquela dor.

Busquemos retomar o sentido do bem na vida e nas relações, deixando ir tudo aquilo que nos afasta do Bem Supremo. Que a Cruz de Cristo possa ser o grande sinal de que os erros não são pagos com a mesma moeda, mas devem ser transformados em formas de fazer o bem, assim como Cristo nos pediu: “Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra. Ao que te tirar o manto, não o impeças de levar também a túnica” (Lc 6,29).

 Busquemos retomar o sentido do bem na vida e nas relações, deixando ir tudo aquilo que nos afasta do Bem Supremo. Que a Cruz de Cristo possa ser o grande sinal de que os erros não são pagos com a mesma moeda, mas devem ser transformados em formas de fazer o bem, assim como Cristo nos pediu: “Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra. Ao que te tirar o manto, não o impeças de levar também a túnica” (Lc 6,29).

Fonte: Diácono Eduardo Augusto Patatt Fucilini - Viamão, RS