Muito se fala de geração x, y e z, ao mesmo tempo que, por contraposição e até em brincadeiras, lembra-se da geração “raiz”. Há jogador de futebol e vendedor “raiz”, pai, mãe, filho e professor raiz. Vários personagens e coisas são categorizadas como “raiz” para mostrar o quão troncudas e espinhentas eram as realidades do passado e como as pessoas eram capazes de as suportar. Deve haver agora até cachorro e gato que não são mais “raiz”. “Raiz” é uma gíria para descrever os tempos em que nas mais diversas agruras, o povo, por virtude, sabia aguentá-las. Era a fortaleza, criada na persistência, a virtude que dava o tom raiz. Nisso, parece que quanto mais para trás no tempo, melhores eram as gerações e mais raiz se era. Pode ser um saudosismo, como se tudo fosse melhor no passado. As coisas e os tempos são diferentes. E tinha gente forte e gente fraca. Havia gente boa e gente não muito boa. A maldade é tão velha como o diabo. E nem tudo agora é fraco ou ruim. O que é mesmo ser raiz? Há gente raiz ainda? É bom sê-lo? Onde estão os que são raiz? Como se pode dizer que alguém é ou foi raiz? Como sê-lo e como podemos valorizar mais quem o foi?
O velho Aristóteles afirma que somente no final de sua vida se poderia assegurar que alguém tem sido virtuoso, isto é, quando se fechou o ciclo da existência. Significa também que pode acontecer o desvirtuamento da pessoa, a sua queda, precisando vigilância até o final. É pela virtude, mantida até o seu final da vida, que se indica a verdadeira firmeza e bondade de uma pessoa. Como dissemos, pode-se caracterizar de “raiz”, enquanto jogador de futebol da várzea, porque ele suportava as más condições do campo, a ausência de juiz, uma bola que pesava tanto quanto uma jaca. Alguém pode ser vendedor “raiz”, pela capacidade de, somente com a lábia, conseguir fazer uma venda, até deixando cliente feliz. Enquanto pessoa, contudo, pessoa “raiz”, sua caracterização de “raiz” parece caber apenas sobre aquele que é virtuoso.
Antigamente nem tinha isso de dizer que alguém era “raiz”. Não tinha essa gíria comparativa, não havia esta importância, pois parece que a maioria do povo era “raiz”. Talvez por isso é que geralmente atribuímos aos nossos idosos esta caracterização. É bom que o façamos, na medida em que eles representam a noção de bem que recebemos por transmissão e que sempre cabe à pessoa virtuosa. É verdade que somente Deus é bom, e nós participamos da Sua bondade. A ajuda que nossos pais e avós, nomeadamente os idosos, deram para esta nossa participação na seiva divina, há que ser reconhecida com nossa honra a eles devida. O honrá-los começa na medida em que levamos adiante uma vida virtuosa. Desta também faz parte, naturalmente, o cuidado que devemos dispensar a eles. Num tempo em que avançar, progredir, relativizando quaisquer verdades, torna-se a nota pela qual vivemos, é bom cuidar para não perdermos o bonde da realidade, caindo na injustiça e na falta de gratidão. Nunca vamos pagar o que nossos pais nos deram, mesmo que eles nos tenham causado algum mal, a vida recebida é impagável.
O abandono dos idosos e o abandonar a Deus vão de mãos dadas. É o mesmo o que diz São Paulo na primeira carta a Timóteo (5,4.8): “...Se, porém, uma viúva tem filhos ou netos, que estes aprendam, primeiro, a praticar a piedade para com os seus próprios familiares e, portanto, aprendam a retribuir aos pais o que deles receberam. Isto é agradável a Deus. (...) Quem não cuida dos seus e, principalmente, dos de sua própria casa, renegou a fé e é pior que um infiel”. Perdeu, assim, o vigor da seiva, já não tem raiz, não é “raiz”, no melhor sentido do termo, e nem tem letra, x, y ou z, para o caracterizar. Ou, como um galho seco, está separado do tronco e não tem mais vida.
O Papa Francisco falava muito sobre a cultura do descarte. Não é apenas por causa do 4º mandamento, isto é, por ser algo mandado, que não se deve descartar ou abandonar os idosos, e que vamos respeitar, cuidar e honrar aos pais ou aos mais velhos. Bento XVI, em 2009, disse: “A velhice é um dom e os idosos têm uma missão no mundo de hoje: a de serem memória e sabedoria para as novas gerações.” É também, assim, uma perda para os outros, os mais novos, quando não nos aproximamos e não cuidamos dos nossos avós e idosos. É preciso reconhecer a importância das suas memórias, nem mesmo se eles já as têm perdido em parte ou se elas refletem coisas de outro tempo. Desastroso é o desprezo da experiência de vida. Papa Francisco, em fevereiro de 2022, também mostrou que “a velhice é um presente para todas as idades da vida. É um dom de maturidade, de sabedoria.” Nisso tudo, vê-se que, na verdade, os mandamentos existem para a nossa edificação.
O Papa Leão XIV, na mensagem ao dia mundial dos avós e dos idosos, diz: “Quantas vezes, na Sagrada Escritura, em particular nos Salmos, a oração nasce do desamparo de quem tem a impressão de que a sua vida não interessa a ninguém e é negligenciada! A dolorosa sensação de ser esquecido é, infelizmente, comum a muitas pessoas e, entre elas, não poucas são idosas.” O Senhor não desampara. Pelo profeta Isaías, Ele mostra que nunca esquecerá de ninguém. Segue o papa dizendo: “A celebração do Dia Mundial dos Avós e dos Idosos é uma oportunidade para redescobrir que a Igreja é chamada a ser mãe de todos e que é sempre possível, em qualquer idade, descobrir-se filhos e filhas de Deus. Que este dia seja, portanto, um estímulo para todos, em particular os mais jovens, retomarem o bom hábito de visitar os seus avós, os idosos da família e também aqueles que não recebem nenhuma visita.” Assim, pois, para sermos justos, respeitosos e manifestar nossa estima, generosidade e amor para com os nossos idosos, concretamente, às vezes bastam pequenos gestos, além dos cuidados de maior vulto. E visitar os idosos é uma obra de misericórdia. Agora temos a possibilidade de mandar uma mensagem, fazer uma ligação com vídeo. Uma presença física é ainda melhor.
Aos idosos o Papa Leão XIV lembra que “a Igreja conhece o sofrimento dos seus filhos mais idosos, sabe bem que demasiadas vezes se olha para eles com preconceitos e são considerados um fardo; está ciente de que uma economia centrada no lucro enfraquece os laços familiares;”. O papa lembra de seu antecessor, João Paulo I, para quem, “especialmente quando já não somos jovens, somos destinatários do amor de Deus que nunca se apaga. Hoje, para muitos, a descoberta da ternura de Deus, no decorrer da vida, acontece precisamente na sua última etapa.” Na idade avançada, temos o convite a renascer, na fragilidade, voltar-nos aos braços do pai. “A idade avançada, a partir das questões que nesta fase da vida se colocam com maior premência, pode tornar-se o momento oportuno para iniciar ou retomar a vida espiritual. (...) Nunca é tarde demais para a Ele nos começarmos a dirigir. (...) Efetivamente, quando é aceite e reconhecida, a fragilidade «abre o coração ao apoio mútuo e à invocação d’Aquele que pode dar o que nenhum poder humano é capaz de garantir: a reconciliação profunda dos corações e, com ela, a verdadeira paz»
Quem dera pudéssemos, avançados em idade, compartilhar a experiência do que vivemos e outros poderem viver bem as suas vidas, principalmente através da transmissão de uma viva sabedoria da fé, ainda mais pelo amor que dispensamos uns com os outros. Se um dia tivermos nossa idade avançada, como gostaríamos de ter a atenção dos nossos, principalmente da família! Agora, se ainda não idosos, no momento em que nos encontramos, com toda a gana, está a oportunidade de fazermos nossa bela e virtuosa história. Parte dela, está o cuidado com nossos idosos. Imaginemos como os santos e especialmente Maria Santíssima cuidaram de seus pais e, então, sigamos os seus exemplos.