Foto: Papa Leão XIV durante a oração do Angelus do último domingo, 11 de outubro de 2026 (VATICAN MEDIA)
O anúncio de Leão XIV no Angelus de 11 de outubro remete a outros momentos em que os Pontífices compartilharam com os fiéis a sua fragilidade. Desde o agradecimento de Paulo VI antes da cirurgia de 1967 até as palavras de Francisco no Hospital Gemelli em 2021, uma retrospectiva através de seis episódios. Circunstâncias diferentes, unidas pela oração e pelo vínculo com quem sofre.
Fabio Colagrande – Vatican News
“Entrego-me às orações de vocês!”. Ao final do Angelus do último domingo, 11 de outubro de 2026, Leão XIV acompanhou com essas palavras o anúncio de uma próxima cirurgia para remover um nódulo no pulmão. Detectado durante alguns exames, o nódulo, explicou o Papa, é “circunscrito”, identificado “numa fase muito inicial” e “bem localizado”. Leão explicou ter decidido se submeter à cirurgia seguindo o conselho dos médicos e agradeceu aos fiéis pela proximidade espiritual.
Paulo VI, o agradecimento antes da cirurgia
Em 1º de novembro de 1967, na Solenidade de Todos os Santos, Paulo VI iniciou o Angelus com uma referência à própria saúde: “saudações a vocês, filhos caríssimos; e obrigado a vocês pelo interesse que demonstram pela nossa saúde”. Três dias depois, em 4 de novembro, ele seria submetido a uma cirurgia na próstata para tratar uma lesão benigna pela equipe do cirurgião Pietro Valdoni, em uma sala de cirurgia montada no Palácio Apostólico. Naquele Angelus, o Papa Montini não falou sobre a cirurgia iminente: expressou gratidão a todos aqueles que se preocupavam com o seu estado de saúde, antes de apresentar uma reflexão sobre a vida além do tempo, sobre a esperança cristã e sobre a comunhão com os falecidos.
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Uma imagem de arquivo de Paulo VI
João Paulo II, do sofrimento à oração
Em 17 de maio de 1981, quatro dias após o atentado na Praça São Pedro, a voz de João Paulo II voltou a chegar aos fiéis através de uma mensagem de áudio gravada no Hospital Gemelli e transmitida durante o Regina Caeli. Wojty?a agradeceu pelas orações, lembrou as duas pessoas feridas junto com ele e declarou o próprio perdão ao autor do atentado. Em seguida, falou sobre o sofrimento que estava vivendo: “Unido a Cristo, Sacerdote e vítima, ofereço meus sofrimentos pela Igreja e pelo mundo”.
Um precedente particularmente relevante remonta a 12 de julho de 1992. “Gostaria agora de lhes fazer uma confidência”, disse João Paulo II após o Angelus, anunciando que naquela noite seria internado no Gemelli “para me submeter a alguns exames diagnósticos”. O Pontífice pediu que fosse acompanhado pela oração e renovou a sua entrega à Virgem com o “Totus tuus”. Em 15 de julho, ele foi submetido a uma cirurgia para a remoção de um tumor benigno no intestino. É, portanto, importante distinguir o que ele anunciou pessoalmente — a internação para exames — da cirurgia que se seguiu.
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Uma foto de arquivo de João Paulo II
Em 29 de maio de 1994, ao retornar ao Angelus da janela do Palácio Apostólico após a internação devido a uma fratura no fêmur, João Paulo II agradeceu aos médicos, enfermeiros, religiosas e profissionais de saúde, bem como às pessoas que lhe haviam demonstrado solidariedade. A convalescença tornou-se também uma ocasião para uma reflexão sobre o significado cristão do sofrimento, no contexto do Ano da Família. Pensando nos poderosos do mundo que ele teria de encontrar e dirigindo-se idealmente a eles, disse: “Mais uma vez tenho de encontrar esses poderosos do mundo e tenho que falar. Com quais argumentos? Resta-me esse argumento do sofrimento. E gostaria de dizer a eles: compreendam isso, compreendam por que o Papa esteve de novo no hospital, de novo no sofrimento, compreendam isso, repensem sobre isso!”. Aos fiéis, ele expressou então gratidão pela “comunidade de oração”: o vínculo mantido durante o tratamento encontrava novamente voz no encontro dominical.
Bento XVI, as forças e o ministério
Diferente é o contexto das palavras proferidas por Bento XVI em 11 de fevereiro de 2013, durante o Consistório no qual anunciou a renúncia histórica ao ministério petrino. Em sua “Declaratio” em latim, o Pontífice explicou que as próprias forças, devido à idade avançada, não eram mais adequadas à tarefa que lhe fora confiada. Ele não comunicou um diagnóstico nem uma cirurgia, mas o resultado de um discernimento realizado diante de Deus, ponderando as suas energias em relação às responsabilidades do serviço.
O Papa Ratzinger lembrou que o ministério se realiza também no sofrimento e na oração. Para governar a Igreja e anunciar o Evangelho, no entanto, ele considerava necessário também “o vigor quer do corpo quer do espírito”, que nos últimos meses havia sentido diminuir. Bento XVI indicou, além disso, na oração a forma pela qual continuaria a servir à Igreja.
Francisco, do Gemelli, um olhar sobre todos os doentes
Em 11 de julho de 2021, uma semana após a cirurgia no cólon, Francisco recitou o Angelus da varanda do décimo andar do Hospital Gemelli. Ele agradeceu aos fiéis pela proximidade e pelo apoio das orações. A partir da sua internação, fez então uma reflexão sobre o valor de “um bom serviço de saúde, acessível a todos”. Ele destacou o empenho necessário para preservar esse bem e encorajou médicos, profissionais de saúde e funcionários dos hospitais.
O cuidado, em suas palavras, incluía também a escuta, a atenção e a ternura: gestos capazes de aliviar a dor e reanimar uma pessoa doente. Ao seu lado estavam algumas crianças internadas. Francisco convidou a acompanhá-las na oração, estendendo o pensamento a todos os doentes, sobretudo àqueles em condições mais difíceis, para que ninguém fosse deixado sozinho.
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A saudação e a bênção de Papa Francisco do Hospital Gemelli, de Roma, em 23 de março de 2025 (VATICAN MEDIA Divisione Foto)
Uma cirurgia, as consequências de um atentado, uma internação para exames, uma convalescença, a perda de forças: esses episódios pertencem a circunstâncias diferentes. Nas palavras dos Pontífices, a fragilidade pessoal se entrelaça com o ministério, a gratidão pelos cuidados e a atenção aos que sofrem. A oração, seja ela solicitada, compartilhada ou oferecida, acompanha essa relação. Mesmo durante o período de doença, o vínculo entre o Pastor e a comunidade continua a se manifestar.