Solenidade da Assunção de Nossa Senhora
Maria, sinal de esperança e modelo de entrega total
Celebramos hoje a Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria, festa em que a Igreja contempla, com júbilo e fé, o mistério da elevação de Maria, em corpo e alma, à glória celestial. No Brasil, por razões pastorais, esta solenidade é frequentemente transferida para o domingo seguinte ao 15 de agosto, coincidindo com o terceiro domingo do mês vocacional, dedicado especialmente à vocação para a vida religiosa e consagrada. Não se trata de coincidência acidental: Maria Assunta é o ícone perfeito daquele “sim” radical e total a Deus que caracteriza a vida consagrada.
A fé da Igreja neste mistério não nasce de uma narrativa histórica detalhada nas Escrituras, mas da profunda compreensão da relação única de Maria com o seu Filho e da tradição viva desde os primeiros séculos. Já no século V a festa era celebrada no Oriente como “Dormição” (koimesis) ou “Nascimento para o Céu” de Nossa Senhora. Em 1º de novembro de 1950, o Papa Pio XII, na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, definiu solenemente como dogma de fé divinamente revelado: “a Imaculada Mãe de Deus, sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”.
As leituras litúrgicas iluminam este mistério. No Apocalipse (11,19a; 12,1-6a.10ab) aparece “um grande sinal no céu: uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça”. Esta mulher, figura da Igreja e, de modo eminente, de Maria, triunfa sobre o dragão. São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios (15,20-27), proclama Cristo como “primícias dos que morreram” e anuncia a vitória definitiva sobre a morte: “o último inimigo a ser destruído é a morte”. Maria, associada plenamente à obra redentora do Filho, antecipa em si mesma essa vitória escatológica. O Evangelho do Magnificat (Lc 1,39-56) revela a atitude interior que a preparou para essa glorificação: a humildade, a gratidão e a disponibilidade total (“o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas”).
A Assunção não é como a “ascensão” de Cristo. Jesus sobe ao céu por sua própria virtude divina; Maria é assumida — elevada pela graça de Deus. Seu corpo, que gerou, alimentou e acompanhou o Verbo encarnado até a Cruz, não conheceu a corrupção do sepulcro. Como ensina a tradição, a maternidade divina, a Imaculada Conceição e a plena cooperação na Redenção tornam incongruente que o corpo de Maria permanecesse sob o domínio da morte. Sua Assunção é, portanto, a consumação da sua configuração a Cristo: ela é a primeira e mais perfeita discípula que já participa plenamente da ressurreição.
Como afirma o Catecismo da Igreja Católica (n. 966), “a Assunção da Virgem Maria é uma participação singular na Ressurreição do seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos”. Olhando para Ela, elevamos o olhar e compreendemos que a salvação alcança a totalidade da pessoa humana — corpo e alma. Numa cultura que frequentemente reduz o ser humano a espírito ou, ao contrário, idolatra o corpo de modo superficial, a Assunção restaura a dignidade integral da criação.
Neste contexto do Mês Vocacional, a Igreja no Brasil dedica o terceiro domingo de agosto à vocação à vida religiosa e consagrada. A ligação com a Assunção é profunda e pedagógica. Maria é o modelo supremo de quem consagra integralmente a própria existência a Deus. O seu “Fiat” na Anunciação, renovado aos pés da Cruz e consumado na Assunção, é o protótipo de todo “sim” vocacional. Religiosos e consagrados, ao professarem os conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência, imitam de modo especial a radicalidade da entrega mariana. Como Ela, não buscam a própria glória, mas deixam-se “assumir” pela graça, para que Cristo seja tudo em todos.
A vida consagrada, inspirada em Maria Assunta, anuncia ao mundo que é possível viver já agora a primazia do Reino. Em tempos de relativismo e de busca de realização individualista, os consagrados testemunham que a verdadeira realização está na doação total. Maria, elevada ao céu, intercede especialmente por aqueles que o Senhor chama a segui-Lo de perto na vida religiosa. Que as famílias, as comunidades e as paróquias sejam terrenos férteis onde o chamado de Deus possa ser ouvido e respondido com generosidade.
Irmãos e irmãs, a Solenidade da Assunção não é apenas uma festa de Maria; é uma festa nossa. Ela nos mostra o destino para o qual todos somos chamados. Ao contemplá-La na glória, renovemos o nosso próprio “sim” cotidiano: no matrimônio, no sacerdócio, na vida leiga ou na consagração religiosa. Peçamos a Ela, Mãe e Rainha Assunta, que suscite na Igreja numerosas e autênticas vocações à vida religiosa, e que todos nós, a exemplo dela, sejamos elevados, já nesta vida, pela graça, e um dia, definitivamente, à plena comunhão com o Deus Trino.
Maria, Assunta ao céu, rogai por nós.
Amém.