O Senhor protege a sua Igreja e sustenta aqueles que colocou para guiá-la.
A Solenidade de São Pedro e São Paulo

Publicado em: quarta, 24 de junho de 2026 às 14:05h
Por: Dom Antonio Carlos Rossi Keller

A Solenidade de São Pedro e São Paulo

 

Esta Solenidade ocupa um lugar privilegiado no calendário litúrgico da Igreja. Nela celebramos dois grandes Apóstolos que, por caminhos diversos, se tornaram as colunas da Igreja nascente. Pedro, o pescador da Galileia, foi escolhido por Cristo para confirmar os irmãos na fé e apascentar o seu rebanho. Paulo, o antigo perseguidor transformado pela graça, tornou-se o grande missionário dos povos. Unidos pelo mesmo amor a Cristo e pelo martírio em Roma, ambos testemunham que a Igreja se edifica sobre a fé apostólica e continua sua missão através dos séculos.

A primeira leitura (At 12,1-11) narra a libertação milagrosa de Pedro da prisão. Herodes Agripa havia desencadeado uma perseguição contra a Igreja. Depois de mandar executar Tiago, irmão de João, prendeu também Pedro, pretendendo condená-lo após a Páscoa judaica. Humanamente, não havia esperança. Entretanto, enquanto Pedro permanecia acorrentado, “a Igreja rezava continuamente a Deus por ele”. A oração da comunidade é atendida: um anjo do Senhor o desperta, rompe as correntes e o conduz para fora da prisão.

Esse episódio revela uma verdade fundamental: a missão confiada por Cristo a Pedro pertence ao plano de Deus e não pode ser destruída pelas forças humanas. O Senhor protege a sua Igreja e sustenta aqueles que colocou para guiá-la. Ao mesmo tempo, a narrativa mostra a força da oração da comunidade cristã. A Igreja sempre acompanha seus pastores com a oração, sobretudo nos momentos de provação.

Na segunda leitura (2Tm 4,6-8.17-18), encontramos o emocionante testamento espiritual de São Paulo. Sentindo aproximar-se o momento de seu martírio, o Apóstolo escreve com extraordinária serenidade: "Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé." Sua confiança não repousa nas próprias forças, mas na fidelidade de Deus: "O Senhor esteve ao meu lado e me deu forças."

Paulo contempla a morte não como derrota, mas como oferta. Toda sua vida foi consumida no anúncio do Evangelho, e agora espera receber “a coroa da justiça”. Suas palavras constituem um convite para todos os cristãos: perseverar na fé, mesmo em meio às dificuldades, certos de que Cristo permanece ao lado daqueles que lhe são fiéis.

O Evangelho (Mt 16,13-19) constitui o centro da celebração. Em Cesareia de Filipe, Jesus pergunta aos discípulos: "Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?" Depois das diversas respostas, dirige-se diretamente aos Apóstolos: "E vós, quem dizeis que eu sou?" Em nome de todos, Pedro professa a fé: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo."

Essa profissão de fé recebe imediatamente uma resposta solene de Jesus: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja; e as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus."

Aqui encontramos um dos textos mais importantes de todo o Novo Testamento sobre a constituição da Igreja. Jesus não apenas elogia a fé de Pedro, mas lhe confia uma missão permanente. Pedro torna-se fundamento visível da unidade e recebe autoridade para governar o povo de Deus em nome do próprio Cristo.

Essa missão não terminou com o martírio de Pedro. Ela permanece viva na sucessão apostólica. Cada Papa, como Bispo de Roma e sucessor de São Pedro, recebe a responsabilidade de confirmar os irmãos na fé, guardar intacto o depósito da Revelação, promover a unidade da Igreja universal e exercer a suprema caridade pastoral para com todo o povo de Deus.

Ao longo de dois mil anos, inúmeros Papas exerceram esse ministério em circunstâncias muito diversas: tempos de perseguição, crises doutrinais, guerras, profundas transformações culturais e grandes desafios pastorais. Apesar das limitações humanas de cada um deles, permanece a promessa de Cristo: “Eu estarei convosco todos os dias até o fim do mundo.” A assistência do Espírito Santo não elimina a fragilidade dos homens, mas garante que a Igreja permaneça fiel à missão recebida de seu Senhor.

Por isso, esta solenidade é tradicionalmente um dia especial de oração pelo Santo Padre. Rezamos para que Deus lhe conceda sabedoria, fortaleza, prudência e santidade no exercício de sua missão de servir à Igreja inteira.

Nesta mesma celebração realiza-se também a coleta destinada ao Óbolo de São Pedro. Trata-se de uma antiga expressão de comunhão entre os fiéis do mundo inteiro e o Sucessor de Pedro. Por meio dessa oferta, os católicos colaboram diretamente com a missão do Papa, ajudando-o a sustentar numerosas obras de caridade em favor dos pobres, das populações atingidas por guerras, desastres naturais e emergências humanitárias, bem como diversas iniciativas pastorais e evangelizadoras da Santa Sé.

Contribuir para o Óbolo de São Pedro não é apenas fazer uma doação financeira. É um gesto concreto de comunhão eclesial. É reconhecer que pertencemos à mesma Igreja espalhada por toda a terra e que desejamos participar, ainda que modestamente, da missão universal confiada por Cristo ao Apóstolo Pedro e aos seus sucessores.

Ao celebrarmos São Pedro e São Paulo, somos convidados também a renovar nossa própria profissão de fé. A pergunta de Jesus continua ecoando em cada geração: “E vós, quem dizeis que eu sou?” A resposta não pode se limitar às palavras. Ela deve manifestar-se numa vida inteiramente configurada a Cristo.

Que São Pedro nos ensine a firmeza da fé e a humildade do verdadeiro pastor. Que São Paulo nos inspire o ardor missionário e o amor apaixonado pelo Evangelho. E que, unidos ao Santo Padre e em comunhão com toda a Igreja, caminhemos sempre na fidelidade a Cristo, para que o mundo reconheça nele o único Salvador e Senhor da história.

 

Fonte: Dom Antonio Carlos Rossi Keller