1º Domingo da Quaresma – Ciclo A
“Não só de pão vive o homem” (Mt 4,4)
1. Introdução — A mensagem central deste Domingo
O 1º Domingo da Quaresma inaugura um tempo forte de conversão, marcado pelo chamado a voltar o coração para Deus, combatendo o pecado e renovando a fidelidade à Aliança. A Liturgia apresenta o mistério da tentação como lugar decisivo de discernimento: entre confiar em si mesmo ou confiar em Deus; entre buscar segurança no poder, no prazer ou no ter, ou acolher a vida como dom recebido do Senhor.
Jesus, novo Adão, vence onde o primeiro homem caiu. Nele, aprendemos que a verdadeira liberdade nasce da obediência amorosa ao Pai e da escuta da Palavra. A Quaresma, portanto, não é apenas tempo de penitência exterior, mas de reordenação interior da vida, com especial destaque para a conversão pessoal, a prática do sacramento da Reconciliação e o compromisso concreto com a caridade, que neste ano se expressa particularmente na Campanha da Fraternidade, dedicada ao tema da moradia.
Primeira Leitura — Gênesis 2,7-9; 3,1-7
O relato da queda mostra como o pecado nasce da desconfiança em relação a Deus. A tentação não começa com o mal evidente, mas com a suspeita: “Deus esconderia algo de vocês?” Ao romper a comunhão com Deus, o ser humano fere também a harmonia consigo mesmo, com o outro e com a criação. Aqui está a raiz de toda desordem social e estrutural.
Salmo Responsorial – Salmo 50(51)
O salmo penitencial por excelência dá voz à atitude fundamental da Quaresma: o reconhecimento humilde do pecado e a súplica por um coração novo. Não se trata de medo, mas de confiança na misericórdia divina, que recria o homem por dentro.
Segunda Leitura – Romanos 5,12-19
São Paulo contrapõe Adão e Cristo. Pelo primeiro, entrou o pecado e a morte; pelo segundo, a graça e a vida. Cristo inaugura uma nova humanidade, reconciliada com Deus. A salvação não é conquista humana, mas dom gratuito acolhido na fé.
Evangelho — Mateus 4,1-11
Jesus é tentado no deserto, lugar da provação e do encontro com Deus. Ele vence o tentador não com milagres espetaculares, mas com a Palavra de Deus. As tentações revelam três falsas seguranças: o pão sem Deus, o poder sem serviço e a religião sem obediência. Em todas, Jesus reafirma que Deus é o centro da vida humana.
3. Comentário prático – Aplicar a mensagem no dia a dia
a) Conversão pessoal e confissão sacramental
A Quaresma é tempo privilegiado para o Sacramento da Reconciliação. Confessar-se não é um ato de fraqueza, mas de verdade e de liberdade. À luz das tentações de Jesus, cada cristão é convidado a examinar suas próprias falsas seguranças: Onde coloco minha confiança? Que pecados pessoais contribuem para injustiças maiores na sociedade?
A confissão cura o coração e devolve a paz interior, condição essencial para uma fé coerente e comprometida.
b) A Campanha da Fraternidade e o tema da moradia
Neste ano, a Campanha da Fraternidade, promovida pela CNBB, chama a atenção para a moradia, um direito humano fundamental e expressão concreta da dignidade da pessoa. A falta de moradia adequada é sinal visível de estruturas de pecado que nascem, em última instância, do egoísmo humano denunciado já no livro do Gênesis.
O que um católico pode fazer concretamente?
- Tomar consciência: informar-se sobre a realidade habitacional em sua cidade e comunidade.
- Examinar a própria vida: identificar atitudes de indiferença, desperdício ou acúmulo que contrastam com o Evangelho.
- Agir com caridade: apoiar iniciativas da Igreja e de organizações sérias que promovem moradia digna, mutirões, fundos solidários ou assistência a famílias em situação de vulnerabilidade.
- Comprometer-se civicamente: acompanhar e cobrar políticas públicas justas, sem partidarismos ideológicos, mas à luz da Doutrina Social da Igreja.
- Rezar e educar: inserir este tema na oração pessoal e familiar, formando consciências sensíveis ao bem comum.
c) Viver da Palavra
Assim como Jesus venceu as tentações com a Escritura, o cristão é chamado a alimentar-se diariamente da Palavra de Deus. A leitura orante da Bíblia, a participação na Eucaristia, a busca do Sacramento da Reconciliação e a oração perseverante fortalecem o coração contra as seduções do mundo.
Autor: Dom Antonio Carlos Rossi Keller
Bispo da Diocese de Frederico Westphalen-RS