A INSUFICIÊNCIA DOS FOLGADOS

04/08/2026 às 10:28h

Muito se fala do baixo número de vocações sacerdotais. Há lugares em grande crise. Há dioceses aqui mesmo no Rio Grande do Sul que possuem apenas um ou dois seminaristas. As congregações religiosas também sofrem a escassez de vocações. A realidade é preocupante. Diante disso, é frequente encontrar alguém que, para elevar o número de vocações sacerdotais, dá a sugestão de que os padres deveriam casar.

Sem levar em conta a irreverência com que, muitas vezes, a ideia é apresentada, respondemos inicialmente dizendo que há falta de vocações também onde há o casamento, como no caso dos pastores evangélicos de confissão luterana. De um modo mais incisivo, perguntamos por que o padre deveria casar, se as pessoas que poderiam e já deveriam casar não casam. Inclusive o interlocutor pode ser um daqueles que vive amasiado. E muita gente vive assim, sem casar. Como se pode querer que o padre case, ao mesmo tempo que o matrimônio é pouco buscado? Em muitos lugares há até mais separações do que casamentos na Igreja. Como padres, até brincamos, dizendo, com ironia, que muitos querem para nós um problema que não querem para si. E, mais, se fosse permitido ao padre casar, acaso então ele não acabaria por fazer o mesmo, lá pelas tantas, inventando de apenas se amasiar? E, depois, buscando uma e outra união a mais? Para uns isso seria legítimo. O padre também poderia estabelecer uma relação de fato, sem papel passado e sem sacramento, temporária que fosse. Isso não seria admissível, diriam outros. O padre tem que dar exemplo! Besteira. A esta altura já seria vantagem o vale-tudo!

Levar a questão ao ridículo ajuda a ver que algo não está bem nalguns pensamentos. O problema não está em casar ou não casar. Achar que o padre deveria casar, como estratégia para ter mais vocações e até para não ser um frustrado, passa pela mesma lógica de achar que o casamento não é estritamente necessário, bastando “juntar os trapos”, sem mais ritos e amarras. De fato, muita gente tem estes pensamentos convivendo na cabeça. Por que será?

O que une estes pensamentos, arriscamos dizer, é o entendimento sobre o amor. Ele é tido como um sentimento que não pode ser reprimido e que, ao contrário, é preciso dar-lhe vazão. A felicidade, pois, estaria em fruir do sentimento, sem ordem e repressões, sem a moral. O fato é que no celibato e no casamento a livre vazão do sentimento não acontece. Nem pode ser assim. Há que ordenar os sentimentos. Ordenar é reprimir. Portanto, o padre é visto como um reprimido, um solteirão azedo, e o mesmo se dá no casamento, estando as pessoas presas, amarradas até a morte. A visão de amor como sentimento ao qual se deve dar vazão não cabe nem no casamento nem na vida do padre. Por isso, no fundo, a ideia não é de que o padre deveria de verdade casar, mas de que não pode ser alguém de paixões reprimidas. Melhor que se amasiem. Isto é fruto da impostura cultural que se passa.

Ora, ninguém pode viver bem simplesmente dando asas aos sentimentos. Os sentimentos vão e voltam. Muitas coisas na vida não podem ficar à mercê destas idas e vindas e até os sentimentos precisam de uma orientação. Muita coisa exige um compromisso duradouro e para toda a vida, como são os filhos, por exemplo, e mesmo o bem da vida do outro com quem se está junto. Não se pode querer o bem do outro baseando-se em sentimento apenas. E aqui não estamos pensando apenas no sentimento de prazer. Há o medo, entre outros sentimentos. Muitos não vão ao matrimônio porque são movidos pelo medo de um compromisso para toda a vida, e estabelecem, assim, uma união imatura. Nem vamos falar da preferência por ter pets em detrimento de ter filhos.

O melhor é desenvolver a vida não à mercê dos sentimentos, mas guiada pela razão, pela inteligência. O amor é escolha e se dá na vontade, um querer da inteligência, e não nos sentimentos ou paixões. Eleva-se a qualidade da vida quando a inteligência está iluminada pela fé e a vontade acalorada pelo amor de Deus infundido. Vive-se pela graça. É por falta de fé e de um amor que tem em conta o sacrifício e ultrapassa o sentimento, que as pessoas não buscam o matrimônio. É o mesmo que se exige na vida de um bom padre.

Há falta de vocações sacerdotais pelo mesmo motivo no qual há poucos matrimônios. Sofremos de uma impostação cultural que obscurece a fé e deturpa o amor. Fulton Sheen, arcebispo estadunidense, há décadas já dizia que “estamos numa revolução cultural. As pessoas estão sozinhas, cheias de frustrações, ansiedades, medos e horror. Elas cortaram todos os laços com o eterno, e acham que esta é uma das saídas, que dá a elas uma libertação temporária. Dizem que isso acontecia no passado. Mas no passado as pessoas sabiam que estavam erradas. Elas não chamavam o errado de certo. Por isso que os indivíduos caíam, mas a civilização ficava em pé. Havia uma ordem moral. (...) Agora a imoralidade é quase uma questão de status.

Uma necessária contrarrevolução passa pelo reconhecimento do casamento como um sinal do amor de Deus pela humanidade. Também passa pelo celibato sacerdotal vivido como um amor indiviso a Deus que preenche aquele que O ama, uma realidade profética que anuncia a vida no céu. Interceda por nós Maria e José!

Fonte: Cônego Elisandro Fiametti
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