Alguns dias atrás fui convidado a participar de uma festa julina. Dessas que, todos os anos, as escolas organizam, convidando toda a comunidade local a participar. Sem pensar muito, fui. Fui porque muitas vezes já havia participado, muitas vezes eu mesmo dancei quadrilha e cheguei a ganhar o primeiro lugar na fantasia mais caipira. Mas, desta vez, havia um motivo diferente. Fui para ver e absorver a realidade de como andam nossas escolas, tomar quentão e assistir às apresentações.
Revisitei minha memória e a comparei com o que via. Percebi que as pessoas continuam participando da festa junina, mas, em muitos aspectos, ela já não é a mesma. Algumas coisas permanecem: os bigodes desenhados com canetão, o tradicional pau de fitas, ainda que às vezes com o traçado errado, o quentão, a pipoca, o pastel e, ao final, as danças que reúnem crianças, jovens e adultos. Algo estava diferente: em meio às danças, músicas que agora estão em alta tocaram bem no meio da quadrilha e, durante a dança, formavam "aura" com seus movimentos típicos. Entretanto, o que mais me chamou a atenção não foram essas mudanças externas, mesmo que incondizentes com o espaço, mas algo muito mais profundo.
As novas gerações têm nos mostrado isso: vão de vento em popa nas modas fugazes. As crianças são jogadas de uma febre do momento a outra, sem que nós percebamos que há algo muito perigoso aí.
Existe um aspecto circunstancial e volátil que, muitas vezes, passa despercebido, mas que, pouco a pouco, molda a forma como enxergamos o mundo. Ele altera a moral e, principalmente, os costumes. Não acontece de uma vez, mas lentamente, quase sem ser percebido, e a isso chamamos de perda da tradição. É justamente nesse ponto que a Igreja se depara com uma dura realidade: os jovens, por mais que continuem os mesmos em sua natureza, agora possuem culturas muito diversas e, geralmente, vazias de sentido e significado, o que gera um esvaziamento da tradição e a absorção de conteúdos e formas passageiras. Diante disso, surge uma pergunta inevitável: os jovens mudaram? E, se mudaram, em quê?
A resposta depende do aspecto considerado. Em sua natureza, não. O ser humano continua sendo constituído de matéria e forma, corpo e alma, exatamente como desde Adão e Eva. Continua sentindo frio e fome. Continua necessitando da convivência, da cultura e, sobretudo, da Verdade, que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Entretanto, no plano cultural, as mudanças são profundas. As variantes culturais transformam lentamente a maneira de pensar, de sentir e de agir, corroendo, muitas vezes, aquilo que a tradição procurou conservar como firme, belo e estável.
Lembro-me de quando eu mesmo participava dessas festas. Dancei o pau de fitas, dancei quadrilha, fui a caráter, participei do casamento caipira e de tantas outras apresentações. Mas nunca fiz "Six Seven" ou formei "aura" enquanto fazia isso. Não se trata de condenar toda novidade nem de afirmar que toda mudança seja negativa. A questão é outra: quando os elementos passageiros começam a substituir aquilo que constitui a identidade de uma tradição, já não estamos apenas diante de uma adaptação cultural, mas diante de uma ruptura silenciosa.
É justamente este o ponto que desejo trazer à tona. Vivemos uma grande falha na transmissão da tradição e, ao mesmo tempo, assistimos ao surgimento constante de novas pseudoculturas, rápidas em aparecer e igualmente rápidas em desaparecer. Enquanto isso, aquilo que levou gerações para ser construído perde espaço diante do que nasce e morre ao ritmo das tendências.
Como nós, pessoas à frente de movimentos pastorais, paróquias e catequeses, podemos enfrentar essa realidade sem nos deixarmos corromper por ela? Como aproximar crianças e jovens de uma tradição que, muitas vezes, já lhes parece distante ou sem sentido? Talvez a pergunta que mais escutemos seja justamente esta: "Por que tenho que ir à missa?" Não é apenas uma dúvida sobre uma prática religiosa; é o sintoma de uma geração que, em muitos casos, perdeu o sentido das próprias coisas fundamentais. Basta olhar para nossas igrejas e perceber que, a cada ano, há menos jovens ocupando seus bancos.
Essa realidade exige uma resposta. Não uma resposta de desespero nem de simples resistência, mas uma resposta inteligente, prudente e profundamente cristã. Certamente é necessária uma rápida adaptação pastoral, acompanhada de compreensão e caridade. Contudo, essa adaptação jamais pode significar o abandono da verdade. Pelo contrário, é justamente a verdade que deve permanecer no centro de toda ação evangelizadora.
Porque, no fim, somente a verdade permanece. É ela que ressuscita ao terceiro dia. É ela que nos dá a vida. É ela que continua oferecendo sentido mesmo quando tudo parece perder o sentido. Santa Josefina Bakhita testemunha isso de maneira admirável. Sua vida demonstra que a verdade de Cristo é capaz de sustentar a pessoa mesmo nas circunstâncias mais cruéis, transformando sofrimento em esperança e escravidão em liberdade.
Cabe, portanto, a nós, seja qual for nossa vocação ou missão, viver essa verdade antes de anunciá-la. O exemplo arrasta mais do que qualquer discurso. Não é por acaso que, nos Evangelhos, encontramos relativamente poucas palavras de Jesus quando comparadas à riqueza da narração de seus gestos, encontros e atitudes. Antes de ensinar, Cristo viveu aquilo que ensinava.
Por isso, nosso dever não consiste apenas em transmitir informações ou preservar costumes por nostalgia. Somos chamados a crescer nas virtudes, viver autenticamente a fé e comunicar aos outros aquilo que experimentamos de mais essencial. Não todos os detalhes de nossa experiência, mas sua essência: a verdade que permanece, atravessa as gerações e continua sendo capaz de dar sentido à vida humana. Somente uma tradição vivida, e não apenas repetida, poderá novamente tocar o coração daqueles que hoje parecem tê-la perdido.