É triste constatar que, em diversos ambientes, a maledicência tem ocupado espaço nas conversas e nas relações que as pessoas constroem. Falar mal dos irmãos, espalhar fofocas, insultar e praticar outras formas de agressão verbal revelam, muitas vezes, um desejo desordenado de superioridade e uma vaidade que busca diminuir o outro para afirmar a si mesmo. Embora a maledicência esteja presente em diversos contextos, este texto se concentra em analisar esse fenômeno dentro da Igreja, buscando compreender como ele pode enfraquecer a comunidade cristã a partir de dentro.
Jesus Cristo deixou um mandamento claro aos seus seguidores: “Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,34-35). Entretanto, antes mesmo de Cristo, a busca pela boa convivência já estava presente na reflexão ética. Como afirma Tales de Mileto: “Evite fazer o que você repreenderia os outros por fazerem”. O amor verdadeiro exige construção, renúncia e entrega; amar significa sair do próprio egoísmo e reconhecer a dignidade do outro.
Mas o que aconteceu na vida dos cristãos para que, tantas vezes, o amor seja substituído pela maledicência? O que leva a língua humana a destruir relações construídas durante anos? O que aconteceu com a unidade, que é um dos fundamentos da vida cristã? As palavras possuem um poder imenso. Pela Palavra, na tradição cristã, Deus se comunica e se torna presente na história humana. Contudo, a mesma palavra que pode edificar também pode ferir, gerar ressentimentos e criar divisões profundas. Por isso, é necessário ordenar aquilo que dizemos para aquilo que é justo, verdadeiro e caridoso.
Como ensina São Tiago: “A língua é um pequeno membro, mas se gloria de grandes coisas” (Tg 3,5). Pequena em tamanho, ela pode produzir grandes consequências. Cristo também recorda: “A boca fala daquilo de que o coração está cheio” (Mt 12,34). Assim, aquilo que sai dos nossos lábios revela aquilo que cultivamos em nosso interior. Ainda observa Santo Agostinho, “as palavras são sinais das coisas”, ou seja, elas revelam aquilo que existe na mente e no coração humano. Portanto, precisamos questionar: o que temos alimentado em nossa alma? Que conteúdos temos consumido nas relações sociais, presenciais ou virtuais? A resposta a essas perguntas manifesta-se nas palavras que pronunciamos.
A Igreja de Cristo está fundamentada no princípio da unidade na diversidade. Somos membros de uma mesma comunidade, com diferentes dons e carismas concedidos pelo Espírito Santo. Contudo, quando dirigimos palavras ofensivas aos nossos irmãos, que pelo Batismo participam da vida de Cristo, ferimos o próprio Corpo Místico de Cristo. São Paulo ensina: “Há um só corpo e um só Espírito” (Ef 4,4). Essa unidade exige cuidado, respeito e caridade. Isso não significa esconder erros ou ignorar problemas, mas aprender a corrigir com amor e prudência, reconhecendo que o outro é um irmão que também necessita de conversão.
No fundo da maledicência encontra-se, muitas vezes, o desejo de expor no outro aquilo que incomoda dentro de nós mesmos. Ao destruir a boa fama de alguém, a pessoa prejudica não apenas o outro, mas também a própria capacidade de amar e conviver. Como afirma São Tomás de Aquino, a caridade exige que se busque o bem do próximo, pois “amar é querer o bem do outro”.
Quando esses conflitos atingem a Igreja, ocorre uma ruptura interna. As divisões deixam de ser causadas apenas por fatores externos, pois os próprios membros passam a enfraquecer a comunhão. É necessário controlar os pensamentos e as palavras, buscando corrigir aquilo que precisa ser corrigido com humildade e misericórdia. A prudência, unida à caridade, torna-se uma ferramenta essencial para a construção de relações mais humanas e cristãs. Como destacou São Paulo VI ao falar sobre a missão da Igreja, é necessário construir uma “civilização do amor”, onde o respeito e a fraternidade sejam fundamentos da convivência.
Ser Igreja, Corpo Místico de Cristo, significa acolher com amor aquele que é diferente de mim, reconhecendo nele a dignidade concedida por Deus. O diálogo com o outro deve ser guiado pela verdade e pela caridade. Os conflitos sempre existirão, mas podem ser transformados quando enfrentados com espírito fraterno. A Igreja é chamada a testemunhar o amor de Cristo, colocando a caridade como fundamento de todas as relações, para que a unidade vivida na terra também conduza à comunhão plena em Deus.