Mensagem por ocasião da Quaresma de 2017

Caros irmãos e irmãs,

Estamos iniciando o tempo quaresmal, conhecido pelas três grandes dimensões da oração, da penitência e da caridade.

Este é o tempo especial, favorecido pela graça de Deus no sentido de reajustar a compreensão que cada pessoa tem de si mesmo e da realidade que a envolve, e de como reorientar-se para o céu.

Dedicamos este período, de maneira especial, à oração mais intensa. É o tempo favorável para nos aproximarmos mais de Deus. Assim, neste período quaresmal, de uma parte vale a pena reafirmar nossos hábitos de oração, procurando fazê-los ainda melhor. Mas também podemos dedicar este tempo para adquirir novos hábitos, novos costumes: por exemplo, quem não reza o terço todos os dias, começar a reza-lo diariamente; quem não costuma participar da Santa Missa diária, começar a participar; quem não dedica ao menos meia hora a cada dia para um momento de oração e diálogo amoroso com Deus, aproveitar a Quaresma para iniciar este costume e etc. Há muitas formas concretas de se buscar esta intensificação da vida de oração.

Outra característica da Quaresma é a intensificação da vida penitencial. Buscar a penitência não por que se gosta de sofrer. Seria esta uma motivação doentia. Mas a Igreja nos ensina que, em um mundo marcado pelo hedonismo, ou seja, pela busca do prazer, o cristão é chamado a ser, a exemplo de Jesus, alguém que não vive na busca desenfreada do prazer, impulsionado por esta mentalidade materialista do “aproveitar a vida”. Com Jesus, aprendemos o valor da entrega amorosa a Deus e aos irmãos, através do desapego de si mesmo. É este o contexto da mortificação quaresmal: aprender a desapegar-se das coisas, de nós mesmos e dos demais, para unir-nos mais a Cristo, aprendermos dele a ser generosos e poder assim, entregar-se mais a Deus e aos demais. Nesta questão da penitência quaresmal, podemos ser criativos: cada um sabe bem o que mais custa renunciar: o uso desmesurado dos meios eletrônicos, o excesso no comer, o predomínio da preguiça, a preocupação exagerada com a própria imagem, o egocentrismo que nos leva a buscar que os outros nos sirvam... Há uma imensidão de fatores que podem servir-nos como motivação para “inventar” muitas penitências corporais e internas, que nos façam viver a Quaresma com um autêntico espírito penitencial.

O deserto quaresmal é também o tempo da caridade para com o próximo, o tempo santo da reconciliação, do perdão e do encontro com os irmãos, especialmente com aqueles que mais necessidade tem de nosso amor, manifestado através da atenção, do carinho, do cuidado. Ao nosso redor existem inúmeras situações de sofrimento, de abandono, de angústia. Não é preciso ir longe, para descobrir irmãos nossos que precisam de nossa atenção, de nosso amor. Tenhamos a coragem de sair de nós mesmos e de nosso círculo de segurança. Há muita gente que, de alguma maneira, precisa de nós. Façamos deste tempo santo um tempo de aprendizado da caridade, que nos acompanhará depois por toda a nossa vida.

Aproveitemos, finalmente esta Quaresma para selar este processo de crescimento na vida cristã que busca a santidade, através do sacramento da Reconciliação. Façamos uma boa confissão: um bom exame de consciência; muitos atos de arrependimento, por ter ofendido a Deus; um firme propósito de não voltar a pecar, que se expressa em atitudes de abandono das situações que nos levam a pecar; uma confissão bem feita, com o sacerdote, que incluam os quatro C: Clara, Concisa, Concreta e Completa. Certamente, a Confissão bem feita será o ápice de uma Quaresma bem vivida.

É importante lembrar que neste ano, a Igreja no Brasil nos propõe como tema da Campanha da Fraternidade “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”. O lema é “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2.15). Ou seja, este tempo quaresmal deve levar-nos não somente à conversão pessoal, mas também a uma conversão social: o respeito pela obra da criação, tão duramente agredida em algumas situações, pelo simples interesse econômico. Cabe a cada cristão e às nossas Paróquias refletir sobre o como podemos colaborar, de forma concreta, para reverter este quadro de degradação, quase sempre presente também em nossas realidades sociais locais.

Vivamos, amados diocesanos, esta Quaresma como um tempo santo de renovação pessoal, eclesial e social.

Deus nos fortalecerá neste caminho quaresmal, levando-nos às alegrias da Páscoa, vida nova em Cristo.

Feliz e Santa Quaresma para todos.

 

Frederico Westphalen, 01 de março de 2017.

Quarta feira de Cinzas

 

 

                                                                                                                      + Antonio Carlos Rossi Keller

                                                                                                                      Bispo de Frederico Westphalen



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