Homilia para a Missa Crismal de 2016

Caros irmãos presbíteros e diáconos, Seminaristas aqui presentes e os que nos acompanham de longe, através das mídias sociais, religiosos e religiosas, irmãos e irmãs.

É uma grande alegria encontrar-nos em torno do altar do Senhor, celebrando o dia no qual Ele institui os sacramentos da Eucaristia e do Sacerdócio. No Cenáculo, o gesto de lavar os pés dos apóstolos indica o verdadeiro significado destes sacramentos do Amor: quem é ordenado para este ministério, é ordenado para ajoelhar-se diante dos irmãos para lavá-los no sangue de Cristo.

Somos convocados hoje a reaviar, em primeiro lugar, o sentimento da necessidade de sermos aliviados das nossas fragilidades e regenerados pela Graça. Todos nós, especialmente aqueles que carregamos o peso do ministério ordenado, sentimos a necessidade de sermos encorajados por Aquele que vê os nossos corações, que nos ajuda sempre a levantar-nos, a renovar o nosso entusiasmo, a retomar o caminho com confiança. Sim, todos nós temos estas necessidades, e o milagre acontece quando nos colocamos diante daquele que pensou em nós desde toda a eternidade: amou-nos e chamou-nos à vida, à fé e ao Ministério Sacerdotal.

Caros amigos padres,

Se a vocação é uma “declaração de amor” – “escolheu doze para que estivessem com Ele” – então a nossa resposta não pode ser uma resposta funcional, de um ministério burocrático, cheio de frieza, na busca de um simples prestígio humano, mas sim uma resposta de amor: seja o que for o que devemos fazer como sacerdotes – ainda que seja uma ação sacerdotal humanamente escondida ou árida e difícil – é amor que o Senhor espera de nós.

Assim, cada gesto, cada respiro, cada movimento de nossa alma, tudo, absolutamente tudo em nossa vida de padres assume uma dimensão de um amor eterno, um amor de salvação querida e realizada.

Neste dia, nesta celebração solene, somos novamente chamados a reviver e a retomar a substância, a essência de nossa vocação: a fé, a esperança e o amor, com marcas sacerdotais.

Somos nós padres, homens enamorados por Deus, pela nossa vocação, pela Igreja, pelos nossos irmãos? Ou somos secos no amor, burocratas do sagrado?

Vivemos da fé, ou somos só professores de doutrina? Somos testemunhas entusiasmadas de uma Palavra que se fez carne e vida ou simples carteiros desinteressados de uma correspondência proveniente do céu?

Somos homens da esperança, manifestada na alegria, uma alegria obstinada que resiste às tempestades, e que tem o poder de interpelar as almas e principalmente provocar nos jovens o desafio de novas vocações sacerdotais? Se somos padres contentes e felizes, então estaremos em condições de colher os sinais vocacionais dos nossos jovens; estaremos prontos a acompanhá-los desde o discernimento vocacional até a porta do Seminário. A animação vocacional devemos tê-la em nossas almas. Não basta ter Equipes Vocacionais nas Paróquias e Comunidades. É preciso que sejamos nós padres, animadores vocacionais através de uma vida sacerdotal cheia de generosa dedicação e de alegria.

Somos homens da caridade, do amor, em primeiro lugar de amor Àquele que nos chamou, nos capacitou, nos ungiu e nos enviou através da Igreja? De onde nasce a nossa alegria? Quais suas raízes? Fundamento minha alegria no ter, no prazer ou no poder? A raiz da verdadeira alegria de um sacerdote está, antes de tudo, em Cristo. Não é diante do computador, ou da televisão que vou, como padre, encontrar a verdadeira alegria, mas diante do sacrário. É lá onde está o Senhor, sempre a nos esperar, que vamos encontrar um novo sentido, uma nova razão para continuar, mesmo sendo nosso ministério árduo e difícil. Por causa desta presença do Senhor, jamais poderemos ceder à tristeza ou ao pessimismo. Nossa vida de amorosa união com o Senhor é a garantia de não nos transformarmos em simples “funcionários do sagrado”, que rezam missa, batizam, atendem confissões, etc.., mas não amam o Senhor. Todo o nosso ministério ou é derivado deste amor ao Senhor, ou então é uma nulidade, um nada...

“Escolheu os doze, para que estivessem com Ele” (Marcos 3,14).

Caros padres,

Não é um conselho o que vou dizer, mas uma necessidade: Precisamos rezar mais.

Rezar mais para não perder o entusiasmo da nossa vocação; rezar mais para não nos transformarmos em simples operadores sociais; rezar mais para que o exercício de um ministério feito de “repetições” (muitas Santas Missas, muitos atendimentos de confissões, muitas celebrações de batismos, etc..) não nos leve, jamais, a que nos esqueçamos daquele a quem servimos, daquele a quem representamos visivelmente, daquele que dá eficácia sobrenatural a tudo o que fazemos. Que desastre se nosso ministério sacerdotal se transformasse em um simples “fazer” coisas, sem alma, sem gosto, sem vibração espiritual, ou seja... sem amor àqueles que desfrutam de nossas ações ministeriais e sem amor ao Amor dos Amores, Àquele que nos fez participantes eficazes de sua ação salvadora.

Temos necessidade de rezar porque só Ele pode curar as nossas feridas com o óleo da consolação, só Ele pode preencher a nossa solidão com o vinho da alegria. Fala-se da solidão dos padres, mas na realidade, somos os menos solitários de todos., porque como pastores, habitamos as encruzilhadas deste mundo, onde estão as pessoas que sofrem, que tem necessidades de amor, de compreensão, de ajuda, de salvação. Nossa casa é o mundo. E nada deste mundo, nenhum tipo de amor humano, poderá substituir a razão última de nosso amor. É no amor a Jesus que está enraizada a nossa vida e o nosso ministério. Seremos pessoas solitárias, tristes e melancólicas só se abandonarmos o Amor dos amores. Nem mesmo a tão necessária fraternidade sacerdotal poderá substituir a raiz de nossa vida, que é Jesus. Sem Jesus, sem que a vida dos padres esteja fundada no amor a Jesus, um presbitério diocesano torna-se só e tão somente um sindicato...

É somente na união com Jesus, expressa em uma autêntica vida de oração, de diálogo com Ele, que nos vacinamos de nos tornarmos mundanos no pensamento, na palavra e na forma de viver. Somente permanecendo fiéis ao Eterno que é Jesus é que poderemos compreender o quão provisório é o presente e o quanto é importante para a eternidade nossa e a de nossos irmãos, o repetir-se das pequenas coisas que compõem o nosso dia a dia, levado adiante com alegria, amor e fidelidade e que nunca devem transformar-se em um peso. O segredo para que isto aconteça, para que o nosso ministério nunca seja causa de tristeza é o manter nosso olhar fixo em Jesus.

Jesus nos chama, antes de tudo, não a oferecer a nossa vida aos irmãos, mas em primeiríssimo lugar a orientá-la em direção a Ele. Ser padre, não consiste primordialmente em ser um conquistador de almas, mas sim em ser alguém que foi conquistado por Jesus.

Ser padre, antes de tudo, significa ser de Jesus.

É isto, certamente, o que nossos irmãos leigos esperam encontrar em nós: Jesus vivo, vivo em nós!

Caríssimos padres, quero terminar esta Homília com uma pergunta: O que eu, vosso Bispo, serei sem vocês? Atenção, não perguntei o que “eu farei” sem vocês. Perguntei o que eu serei! O Bispo é para os seus sacerdotes e para o seu povo.

Assim, neste dia quero convidar a que juntos, o bispo e seu presbitério, olhemos para o nosso horizonte interior. Para o bom desenvolvimento de nosso ministério, é preciso que brilhe em nosso horizonte de vida a luz de Cristo. E esta luz brilhará em nós se formos homens de oração, homens que na vida de oração alimentam a chama da caridade pastoral, da entrega generosa a Deus, pelo bem de nossos irmãos.

Como nos ensina o papa Francisco, esta luz misteriosa “não dissipa todas as nossas trevas, mas guia na noite os nossos passos, e isto já é suficiente para o caminho”.

Assim, a nossa vida será ir ao encontro dos nossos irmãos com esta lâmpada, porque os amamos e para que a vossa alegria seja verdadeira.



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