Homilia para a Missa Crismal de 2015

Irmãos e irmãs aqui reunidos em nossa Catedral Diocesana de Santo Antonio, bem como aqueles que nos acompanham pela Radio Luz e Alegria e pela FWTV;

Caríssimos irmãos padres e diáconos, religiosos e religiosas, queridos seminaristas, e todos aqueles que participam, de alguma forma, desta Santa Missa Crismal, durante a qual serão abençoados os óleos dos Catecúmenos e dos Enfermos, e consagrado o óleo do Crisma, sinais da santidade de Deus que envolve o corpo da Igreja, através dos Sacramentos.

Hoje somos convidados a meditar e a contemplar o mistério salutar escondido nas palavras do profeta Isaías, que o Senhor aplicou a si mesmo: “O Espírito do Senhor está sobre mim... Hoje cumpriu-se esta Escritura”.

1. As palavras do Evangelho de São Lucas que devotamente escutamos nos falam de Jesus, da sua pessoa e da sua vida. Elas nos desvelam a origem da missão do Verbo Encarnado no mundo e nos levam às fontes mesmas de onde elas brotaram: o Espírito do Senhor. Desta forma somos introduzidos na relação do Salvador com o Espírito que o ungiu e o constituiu na sua missão salvífica.

A Palavra de Deus nos revela que esta missão de Jesus teve a sua origem no Pai, como nos diz São Paulo na Carta aos Gálatas: “quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu filho, nascido de uma mulher” (Gal. 4,4). As obras extraordinárias que dão perfil e substancia à missão do Senhor Jesus no mundo – levar aos pobres o alegre anúncio, proclamar aos prisioneiros a libertação e aos cegos a vista, colocar em liberdade os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor – são obras projetadas e queridas pelo Pai, mediante o Espírito Santo. São obras que se enraízam no mesmo Amor Trinitário, como nos ensinaram os grandes Padres da Igreja: a economia da salvação depende inteiramente da Trindade santa e adorável.

2. Enviado pelo amor do Pai, vindo ao mundo por causa do amor do Pai para com a humanidade, Jesus é verdadeiramente constituído nosso Salvador, pela unção recebida, que é o Espírito Santo.

Constituído na nossa humanidade pelo Espírito Santo, o Filho se confia totalmente, na conformidade com a vontade do Pai, à ação do Espírito: esta ação o leva a trazer para toda a humanidade o feliz anúncio da salvação, que é libertação do pecado e de todo o mal decorrente do mesmo.

É este o mistério que estamos celebrando: o mistério da unção do Verbo Encarnado por parte do Espírito Santo; o mistério do seu “dies natalis” (dia do nascimento) como sacerdote da Nova e Eterna Aliança; o mistério da presença do Espírito Santo na sua santa humanidade, mediante a qual Cristo “ofereceu a si mesmo, sem mancha, a Deus”, para que, acontecendo a sua morte, aqueles que são chamados, possam receber a herança eterna que foi prometida (Hebreus 9,14.15).

3. Caros irmãos no sacerdócio, caros padres, também nós somos convidados a fazer nossas as palavras do Evangelho de São Lucas que foi proclamado hoje: “O Espírito do Senhor está sobre mim; por isto ele me consagrou com a unção”. Estas palavras tem alguma coisa de fundamental a dizer também a nós sacerdotes. Elas descrevem, de fato, não só o “dies natalis” de Jesus como sacerdote da nova e eterna Aliança, mas também o nascimento do nosso sacerdócio em Cristo. Hoje é o dia de aniversário sacerdotal de todos nós. Temos, nestas palavras, surpreendentes revelações, a graça incomensurável de reencontrar as raízes mais profundas, porque eternas, não só e não principalmente do nosso operar e agir como sacerdotes, mas, sobretudo do nosso SER sacerdotes; da nossa predestinação a ser participantes em modo singular da unção do Verbo Encarnado como sacerdote da nova e eterna Aliança.

Fixemo-nos com o coração cheio de gratidão, na contemplação deste mistério santo: é com um único ato de caridade e através um único movimento de amor divino e eterno que o Pai, no Espírito Santo, consagrou o seu Filho Unigênito e consagrou também a cada um de nós. As raízes do nosso sacerdócio mergulham no diálogo salvífico acontecido entre o Pai e o Filho, no Espírito Santo e, com a alma cheia de estupor e de gratidão, também nós hoje e agora, aqui neste contexto feito solene nesta Celebração Eucarística Crismal, podemos dizer como Jesus e com Jesus: “O Espírito do Senhor está sobre mim; por isto ele me consagrou com a unção e me enviou a levar aos pobres o feliz anúncio, a proclamar aos prisioneiros a libertação e aos cegos a vista; a colocar em liberdade os oprimidos, a proclamar o ano da graça do Senhor” (Lucas 4,18 e sgts).

4. Caros irmãos no sacerdócio, a alegre redescoberta do valor e do significado do nosso comum dia de aniversário sacerdotal, deve oportunamente ser acompanhada com a redescoberta da nossa dignidade sacerdotal: palavras que devem ser sempre pronunciadas com humildade, mas também sem medo e sem falsas prudências.  Temos uma dignidade sacerdotal! É a dignidade de quem tem a plena consciência de ser sacramento da presença de Cristo no meio da humanidade. Somos, como sacerdotes, sacramento vivo de Cristo vivo. Não podemos jamais renunciar a ela. Renunciar a esta dignidade seria uma verdadeira tragédia espiritual. A consciência de nossa dignidade sacerdotal deve se manifestar nas coisas grandes e também nas coisas pequenas. Cada um de nós, começando pelo bispo, cada padre e também cada seminarista que se projeta intencionalmente para o sacerdócio, todos nós, precisamos seriamente nos colocar diante deste questionamento produzido por estas palavras “dignidade sacerdotal”. Pode ser um exame de consciência duro, sofrido, mas, em sã consciência, não podemos jamais fugir. Todos nós, o bispo, os padres e os seminaristas, podemos ter princípios em nossa vida contrastantes com estas palavras “dignidade sacerdotal”.

Contrasta com esta dignidade sacerdotal o deixar-se levar em comentar e a criticar tudo e todos, em geral sem nenhuma razão lógica, dando vazão a expressões de imaturidade psicológica e aridez espiritual que produzem frutos amargos não só em nossa vida pessoal, mas nas feridas infligidas à Igreja. Contrasta com a dignidade sacerdotal a rigidez em não aceitar e em não querer mudar realidades e situações que precisam ser mudadas pelo bem da Igreja, especialmente no que diz respeito à questão dos atuais e dos futuros sacerdotes. Contrasta com a dignidade sacerdotal o descuido com amizades humanas, com liberdades indignas de quem, como Jesus, consagrou-se ao Pai. Contrasta com a dignidade sacerdotal o descuido injustificado pela liturgia e pelas celebrações litúrgicas que devem sempre ser realizadas com decoro e dignidade, segundo TUDO o que a Igreja nos pede e de nós exige. Contrasta com esta dignidade sacerdotal a permissividade em criar necessidades, em sonhos de bens materiais, a busca de si mesmo, de ideais e horizontes puramente humanos, que fazem do sacerdócio um puro e simples trampolim para o ter mais, para o aproveitar mais a vida, para uma busca egoísta de realização pessoal que ofendem o espírito de pobreza, de desprendimento e de entrega que Jesus nos ensina com sua vida. Somos padres não para nós mesmos, mas para Jesus, para o bem de nossos irmãos. Contrasta com esta dignidade sacerdotal o pretender construir comunidades cristãs à própria imagem e semelhança e não à imagem e semelhança do Senhor, ou ainda pior, sentir-se donos indispensáveis das mesmas, sem advertir neste modo de pensar e de ser a distância que separa esta atitude do convite do Senhor a sermos servos do povo de Deus. A dignidade sacerdotal, ao contrário, se guarda e se preserva quando cultivamos no coração e na alma a alegria de sermos sacerdotes obedientes e generosos; quando nos aproximamos às pessoas e às nossas comunidades anunciando-lhes o mistério maior, ou seja, o mistério da Redenção; quando, ao invés de deixar-nos hipnotizar das realidades materiais, consideramos a nossa existência constantemente mergulhada na economia da salvação projetada pelo Pai, realizada pela Páscoa de Jesus e constantemente vivificada por seu Espírito.

Neste Tríduo pascal, antes de celebrarmos a Páscoa do Senhor, façamos todos nós, o bispo, o seu presbitério e também os seminaristas, um sério exame de consciência: que valor tem para cada um de nós esta expressão “dignidade sacerdotal”?

Caros irmãos no sacerdócio, diáconos, religiosos e religiosas, consagrados, fiéis cristãos leigos, confiemos à Santíssima Virgem Maria os bons e santos propósitos que desejamos amadurecer nesta circunstancia cheia de graça salutar, seguros de que com a sua materna proteção, Ela saberá fazer-se nossa intérprete junto a seu filho Jesus. Amém.



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