Homilia para a Missa Crismal de 2014

“Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (Lucas 4,21)

Amados padres e seminaristas, caros religiosos, religiosas, irmãos e irmãs,

Nesta solene celebração da “Missa Crismal”, queremos mergulhar no mistério de Cristo, Sacerdote, Rei e Profeta, e reviver este Mistério em nós, com firme adesão, enquanto nos dispomos a celebrar sua paixão, morte e ressurreição, nesta Semana Santa.

As leituras bíblicas, tiradas do Profeta Isaías, do Livro do Apocalipse de São João e do Evangelho de São Lucas, estão em perfeita sintonia entre si. Jesus lê o trecho do Profeta Isaías (61,1-2), no qual o profeta anuncia a vinda do Senhor, que libertaria o povo das aflições. Esta profecia, diz o Senhor, cumpre-se na sua Pessoa, pois é Ele o Ungido, o Messias que o Padre enviou para seu povo sofredor. Para esta missão, Jesus recebe a unção do Espírito Santo: é a “primeira declaração messiânica” do Senhor, como que uma apresentação de Jesus ao mundo.

“O Espírito do Senhor está sobre mim,

porque ele me consagrou com a unção

para anunciar a Boa Nova aos pobres,

enviou-me para proclamar a libertação aos cativos

e aos cegos a recuperação da vista,

para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor.”

Cristo quis que a sua consagração sacerdotal fosse comunicada à sua Igreja, estabelecendo, desta forma, que o sacerdócio ministerial fosse distinto ontologicamente, e não só em grau, do sacerdócio batismal, chamado também de “sacerdócio comum dos fiéis”.

Caros padres, no dia de nossa ordenação sacerdotal, recebemos um dom e uma missão sem nenhum merecimento de nossa parte, mas por iniciativa divina fomos eleitos (dom) e enviados (missão) para continuar a missão de Cristo no mundo. É esta a nossa identidade: nós pertencemos a Deus, e pertencemos ao povo de Deus, do qual viemos, e ao qual somos enviados e do qual fazemos parte. A nossa identidade é, pois, uma pertença de comunhão, não de separação. E esta pertença se realiza através da obra do Espírito Santo: “O Espírito do Senhor está sobre mim” diz o profeta e diz Jesus de Si, usando as palavras do Profeta. O Espírito, na verdade, não só nos introduz no Mistério de Cristo sacerdote, mas nos conduz para a missão, realizando aquela harmonia de comunhão que, em Cristo, nos une ao Pai. É ação do Espírito Santo a edificação do corpo presbiteral (presbitério), bem como o fortalecer-nos para cuidar do rebanho que nos é confiado.

A ação de cuidar requer grande dedicação e afeto: cuida-se e dedica-se a cuidar daquilo que é frágil, daquilo que é precioso, daquilo que pode estar em perigo, em risco de perder-se. E a origem deste cuidar amoroso e apaixonado nasce e enraíza-se exatamente na consciência deste “pertencer a Cristo”, na comunhão eclesial e sacerdotal. Isto significa que no nosso ministério sacerdotal devemos evitar todo e qualquer “isolamento do eu” que, além de trazer graves danos ao próprio padre, diminui a eficácia do nosso serviço ministerial, para o bem das almas. Cuidamos do rebanho em nome de Cristo, e não em nome próprio... O centrar este cuidado em nós mesmos seria a causa de um autêntico desastre.

Se permitimos em nossa vida este isolamento, este centrar-se egoisticamente em nós mesmos, corremos o risco de não entendermos mais nossa condição de “enviados”, mas preferiremos andar por nossa conta, e terminaremos de forma desordenada, tendo a nós mesmos, aos nossos gostos, à nossa vontade, ao nosso querer como referenciais.

Irmãos padres: nosso único referencial é Cristo!

Para evitar este perigo de uma vida egoisticamente centrada em si mesmo, o remédio é a união pessoal a Cristo, de quem deriva o nosso sacerdócio. Um autêntico sacerdote de Cristo não pode jamais deixar de ser alguém sinceramente enamorado de Seu Senhor. Só deste amor-comunhão nasce a dedicação apaixonada à própria missão pastoral, o constante desejo de buscar aqueles que estão afastados, nas palavras do Papa Francisco, nas periferias existenciais do mundo de hoje. Jamais podemos nos contentar em sermos meros administradores, seja lá do que seja: ou de sacramentos, ou de construções, ou de ideologias, ou de qualquer outra realidade. Nesta ótica do sacerdócio como dom e missão, cada um de nós será capaz de superar o grave risco do “funcionalismo” burocrático, que poderia reduzir-nos a simples “gestores” das coisas sagradas.

Caros padres,

Hoje, reunidos nesta solene celebração eucarística, quero exortar-vos paternalmente a permanecerdes fiéis às promessas feitas no dia de vossa ordenação sacerdotal, e que dentro de alguns instantes ides renovar. Conheço o vosso espírito de serviço, o vosso ardor sacerdotal, a vossa doação total aos irmãos. Nunca, jamais aconteça em vossa vida vos permitir de perder o fervor espiritual. Conservai sempre a doce e confortante alegria de serdes sacerdotes e evangelizadores. Frente às angústias e às esperanças do mundo atual, nunca vos sintais tristes ou desencorajados, mas sede sempre ministros do Evangelho, irradiando fervor, acolhendo sempre, antes de tudo em vossas vidas, a alegria de Cristo. Aceitai sempre de colocar a vossa vida em jogo, eu diria mesmo, em risco se for preciso, a cada dia, afim de que o Reino seja anunciado e a Igreja seja implantada no coração do mundo.

Sede sempre firmes e corajosos diante das dificuldades que inexoravelmente aparecem. Sede sempre padres da misericórdia, sobretudo em relação aos mais simples e humildes, aos pobres e necessitados, aos que estão mais afastados da vida eclesial. Cuidai com especial carinho das Comunidades menores, mais abandonadas, mais distantes das sedes paroquiais, muitas delas pequenos restos de Israel. Sede promotores da prática da caridade e da cultura da autêntica solidariedade, prontos a ir pelas estradas em direção às periferias da vida, onde estão tantos irmãos e irmãs, reconhecendo em cada pessoa a dignidade de filhos de Deus, na imitação do Senhor Jesus que se fez próximo e companheiro de todos em cada gesto seu de amor e de misericórdia.

Configurados ao coração do Bom Pastor, dóceis às moções do Espírito, tende sempre uma profunda experiência de Deus. Vivei na intimidade com o Senhor Jesus, nutrindo-vos da Palavra de Deus, da Eucaristia, se possível celebrada diariamente e da oração constante. Sede missionários ardentes, movidos tão somente pela caridade pastoral para com todos, sem exceção. Vivei com sinceridade e alegria a vossa comunhão com o Bispo, com os irmãos padres, com os diáconos, com os religiosos e religiosas, muito especialmente com os nossos seminaristas diocesanos e com os nossos fiéis cristãos leigos.

Como guias, que por sua vez são guiados por Cristo e pela Igreja, sede servidores do vosso rebanho, fazendo-vos amigos e companheiros do povo santo de Deus, no seu difícil peregrinar em direção à Páscoa eterna.  

Dirijo-me a vós, seminaristas de nossa Diocese.

Nesta solene celebração, tendes diante de vossos olhos e de vossos corações, os padres da Diocese de Frederico Westphalen, que, juntamente com o bispo, formam uma família, não unida por laços de sangue, mas pelos vínculos do Sacramento da Ordem.

Há um ditado castelhano que diz “sonhad e os quedares cortos”, que poderíamos traduzir assim como “sonhai e o sonho logo se transformará em realidade”. Preparai-vos bem, neste período de formação que é o Seminário, para que um dia, pela vontade de Deus, também vós possais fazer parte desta belíssima família espiritual. Todos, o bispo, os padres, os religiosos e religiosas e os leigos, rezamos, para que, um dia, estejais unidos a esta família sacerdotal. Ficai firmes na perseverança! Vale a pena ser padres, e dar a vida por Deus, pela Igreja e pelos irmãos.

Maria, Mãe a Igreja e de todo os cristãos, amavelmente venerada em nosso Seminário Menor com o título de “Nossa Senhora Medianeira”, assista, proteja e acompanhe os nossos padres , os nossos seminaristas e os nossos vocacionados. Amém.



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