Artigo de Dom Antonio Carlos Rossi Keller -O nosso confronto com Deus e a experiência de Isaías

O nosso confronto com Deus e a experiência de Isaías

 

Temos sempre a tentação de fazermos comparações entre pessoas. Quando nos comparamos com as pessoas que estão ao nosso lado pode acontecer que tenhamos a tentação de nos reconhecermos mais que elas. Todavia, quando nos confrontamos seriamente com Deus, fazemos a dramática experiência da nossa pequenez e indignidade.

Assim aconteceu com Isaías, como nos relata a 1ª Leitura deste Domingo (Isaías 6,1-2.3-8).  Ele conta em forma figurada a experiência interior do seu contato com Deus. Aí descobre que o Senhor o escolheu para ser profeta. Embora estupefato e aflito, toma consciência da própria fraqueza e sente medo da missão que lhe está confiada. Embora se sentindo indigno, não tem hesitações. Diz com prontidão: «Eis-me aqui: podeis enviar-me».

Pedro (Lucas 5,1-11) também teve uma reação muito semelhante à de Isaías e àquela que nós habitualmente tomamos ao sermos interpelados por Jesus. Quando o Mestre mandou Pedro fazer-se ao largo com a sua barca, ele pensou – como pescador experiente – que tal ordem era insensata, por não ser hora para pescar. Mas, confiado na sua palavra, lançou as redes e o resultado não se fez esperar.

Notemos nos pormenores significativos desta narrativa: a proclamação da Palavra de Deus é feita a partir da barca de Pedro. A barca representa a comunidade cristã. É aí que ecoa a voz do Mestre. Nela se encontram, certamente, pessoas nem sempre exemplares. Mas, embora ocupada por pecadores, é desta barca que ressoa a palavra de Cristo.

Um segundo pormenor é que esta palavra é anunciada em dia de trabalho e num lugar não sagrado, sinal de que tal palavra deve esclarecer, conduzir e iluminar todas as atividades dos homens. Pedro guia a barca para o lugar indicado, informação clara de que é ele que deve escutar com atenção a palavra do Senhor para depois, conjuntamente com os Apóstolos, a proclamar com fidelidade, como o Senhor deseja e não como Pedro entenda que deva ser.

As redes são lançadas em pleno dia contra a lógica dos pescadores. Eles pensam ser uma tarefa inútil, mas no fim o resultado é inesperado.

Também hoje, a harmonia nas comunidades, nas famílias, nas nações, no mundo, não conseguem resultados eficazes por serem ditados pela «sabedoria dos homens», porque as propostas feitas de perdão, de reconciliação, de oferecimento da outra face, de perdoar as dívidas – que estão de harmonia com o Evangelho – são ridicularizadas e esquecidas. Enquanto não tivermos a coragem de confiar na Palavra do Mestre, não conseguiremos concretizar nenhuma obra de libertação.

Finalmente, o centro do episódio. A tarefa a desempenhar pelos seguidores de Jesus: serem pescadores de homens, ajudando-os a viver, principalmente os que se sentem emaranhados nos seus defeitos, dados às suas paixões, que se arruínam a si mesmos e aos outros. O Senhor continua a chamar-nos. Apesar de nos sentirmos pecadores - como Isaías, Pedro, Paulo, e todos os cristãos que testemunharam Jesus ao longo dos tempos - contamos com o auxílio de Deus. O Senhor espera a nossa resposta ao seu chamamento. Tenhamos a coragem de dizer: «Senhor. Eis-me aqui, para fazer a vossa vontade».

Deus espera de todos nós, cristãos, que evidenciemos, com o nosso testemunho, que é possível construir uma sociedade alicerçada em sãos princípios: no perdão, na partilha dos bens, no serviço mútuo, no respeito pelos outros, na solidariedade para com os menos protegidos ou mais fragilizados. Só assim conseguiremos ser testemunhas credíveis da ressurreição de Cristo, de que nos fala a segunda Leitura (1Coríntios 15,3-8.11).



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