Martin Scorsese: a humanidade resiste ao horror

Entrevista com o diretor de cinema Martin Scorsese: “Aprendi nas ruas que todos os dias as pessoas fazem todo tipo de compromisso com o mal, e que a humanidade ainda existe, e também a bondade”

Andrea Monda – Cidade do Vaticano

Quando Martin Scorsese encontrou o Papa Francisco pela segunda vez, em 21 de outubro do ano passado, retomaram uma conversa como fazem dois velhos amigos que se entendem facilmente, sem nenhuma dificuldade. O Papa quis saber da sua esposa e sobre o seu novo filme The Irish Man, e o diretor explicou que se trata de um filme sobre o tempo e a mortalidade, a amizade e a traição, o remorso e as saudades dos tempos passados.

Entre os dois logo começou um diálogo simples e profundo que logo chegou a Dostoiévski, paixão comum entre eles, que com seus romances inspirou o diretor em mais de uma obra. É a partir do escritor russo que inicia a nossa conversa ao falarmos do filme The Irish Man e seu protagonista, Frank Sheeran (interpretado por Robert De Niro) que é o único sobrevivente, portanto que pode e deve falar, o único que comunica as “Memórias da Casa de Mortos”. Não é um caso que todos os outros personagens, logo que aparecem em cena, vêm com uma legenda descrevendo a data e o modo, sempre violento, da morte. Frank é vivo e fala, aliás, se confessa, fixando diretamente a câmera, nos olhos dos espectadores. É um outro filme profundamente espiritual da carreira de Scorsese, que desde os tempos de Silence, revelou que é “obcecado pela espiritualidade”, isto é, pela pergunta quem somos nós, seres humanos. Na sua opinião esta pergunta obriga cada um de nós a se olhar de frente, de perto, a olhar o bem e o mal que existe dentro de nós.

Martin Scorsese: Essa pergunta marcou grande parte da minha vida, e está presente na maior parte dos meus filmes. Neste último, unem-se ao mesmo tempo, tanto a observação externa quanto a reflexão interior; na medida que o filme vai adiante o equilíbrio se desloca do exterior para o interior. A questão é: como se reconcilia o mundo externo das circunstâncias com o mundo interior da fé?” Uma interrogação que me acompanha desde sempre e que enfrentei de várias maneiras no decorrer da minha existência. Agora, aos 77 anos, suponho que a reflexão interior torne-se prevalente.

Cerca de um ano atrás, dialogando publicamente com o Papa Francisco o senhor contou que quando era jovem vivia em um mundo dividido, em duas partes separadas: a rua, cheia de mal e de violência, e a igreja, onde estava Jesus e a sua lei do amor e o senhor achava a contradição irremediável. Na ocasião o Papa respondeu-lhe que a sua proximidade com a gente de rua deu-lhe a sabedoria que o senhor colocou mais tarde nos filmes. Qual foi a lição que aprendeu nas ruas e com os homens de Igreja?

Martin Scorsese: Nas ruas aprendi que todos os dias as pessoas fazem todo o tipo de compromisso com o mal, e que a humanidade ainda existe, e também a bondade – e que todas essas coisas podem existir lado a lado, às vezes tão próximas que no início não se consegue distingui-las. Na Igreja aprendi com estes homens, com os padres de rua diocesanos (padres como padre Príncipe, que já falei muitas vezes), que se pode ser duros por fora e misericordiosos por dentro, e que a dureza é um modo para alimentar aquela misericórdia – ou, como se diz, o mandamento do amor de Jesus – dentro de nós. É um dos dons mais preciosos que eu tenha recebido.

O tema da misericórdia me faz lembrar de um livro, o Diário de um pároco de aldeia de Bernanos cuja leitura para o senhor foi uma revelação do rosto misericordioso do Deus cristão. E obviamente me recorda Papa Francisco…

Martin Scorsese: Também penso nisso. Quando penso no Papa Francisco devo dizer que a primeira palavra que me vem na cabeça é compaixão. Ao se ler as palavras do Santo Padre, nos encontramos com ele frente a frente, e nos damos conta que é um homem que vê o fundamento espiritual da Igreja. A Igreja católica é uma instituição muito grande, é uma tradição, é uma empresa, uma organização enorme. Mas a sua essência não é uma questão de negócios humanos ou mundanos, é uma questão de espírito. Esta é a pedra, o fundamento: a prática e o seguimento vivo do exemplo de Cristo. Papa Francisco repete isso e pede que o reconheçamos. Considero extraordinário que este homem seja o nosso Papa. É uma bênção. E considero uma bênção tê-lo encontrado.



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